quinta-feira, 30 de novembro de 2006
Porque a memoria nao deve ser esquecida, sera justo relembrar o assassinato de Gisberta a horas do Dia Universal da Luta conta a Sida
Lamento, mas recuso-me a fazer parte da maioria silenciosa!
Lamento, mas não vou seguir a estratégia do politicamente correcto, omitindo a questão e preferindo sentar-me numa esplanada a saborear um gelado, em frente ao mar, enquanto debito generalidades, sobre os temas da actualidade, seguindo os ditames de uma consciência pública que se fragiliza e grita quando convém e se cala, quando mais conveniente é!
Lamento, mas não vou por aí!
Lamento, mas não vou assobiar para o lado, argumentando que “está calor”, “ninguém quer ler crónicas desagradáveis e pesadas, quando o calor aperta e o convite é explicito para o divertimento e a displicência”. Não usarei esse argumento falacioso!
Lamento, mas nem sequer me vou atrever a alegar que justiça foi feita, porque eu sei que não é verdade!
Lamento, por Gisberta.
Lamento, por os media terem dado muito menos divulgação à resolução do colectivo de juízes do Tribunal de Família e Menores do Porto que decidiu as medidas que iriam ser aplicadas aos assassinos de Gisberta, do que a eventos bem menos importantes, talvez porque vendem mais ou porque não interessaria acordar uma consciência fascinada com o conflito israelo-libanês ou com a problemática dos incêndios em Portugal! Sem querer fugir ao fio condutor, mas porque é uma observação que urge ser feita e que, estranhamente não vi ninguém efectuar... Alguém reparou que durante o Mundial de Futebol, praticamente não houve incêndios em Portugal quando, por diversas vezes, os termómetros atingiram, em várias localidades, os 30 e os 40 graus?
Mas deixemos este reparo breve, quase em nota de rodapé e regressemos, uma vez mais e sempre, ao caso Gisberta.
Lamento, por tudo isto, mas e principalmente, por Gisberta, que não conheci, mas em quem não deixo de pensar, após o seu brutal assassinato, com requintes de malvadez, por gente que o Sistema decidiu inocentar. E se por acaso me tivesse esquecido do animalesco assassinato, se por acaso não continuasse a usar o exemplo, como “case study” em todas as conferências que efectuo, com o intuito de efectuar um permanente remember me, se por acaso, dizia, me tivesse esquecido... tinha sido violentamente acordado para a realidade, da forma mais insana e hipócrita, aquando da decisão do tribunal... aliás, cumprindo a prévia decisão do Sistema!
Os 13 assassinos foram condenados (premiados) a medidas tutelares de internamento em centros educativos por períodos que vão dos 11 meses – aplicada a cinco assassinos – aos 13 meses – aplicada a seis outros assassinos –, todas elas cumpridas em regime semi-aberto. Ainda dois outros foram obrigados, durante um ano, a frequentar a Escola e a ter acompanhamento educativo... Ocorre-me perguntar, sarcasticamente, como se pode condenar alguém a frequentar a Escola... quando a mesma frequência já é obrigatória por Lei... Ou desconhecerá o Sistema que o ensino escolar é obrigatório, nas faixas etárias referidas?
É este o preço de uma vida, no caso em apreço de Gisberta, nascida a a 5 de Setembro de 1960 em S. Paulo, no Brasil e assassinada no Porto, em Portugal, em Fevereiro de 2006 e de novo assassinada, agora pelo Sistema, em Julho de 2006.
11 a 13 meses...
Lá bem no fundo, no mais recôndito do meu ser, eu sabia que o Sistema ia ganhar, perversamente... mas não queria acreditar.
Nem sequer detectei indícios quando o julgamento foi marcado em tempo recorde.
Tão pouco vislumbrei pistas do desfecho hediondo, quando alguns jornalistas foram anunciando, em tom de breve referência, que a audição das testemunhas iria ser feita muito rapidamente.
Lamento por tudo isto e por todo este tenebroso desfecho.
E ainda houve quem dissesse, do alto da sua suprema sapiência, que teria sido “uma brincadeira que correu mal”...
Uma brincadeira que correu mal?
Torturar, com requintes de extraordinária malvadez e perversidade um ser vivo, durante ininterruptos dias?
Esbofeteada, esmurrada, cuspida, insultada, violentada, penetrada com objectos contundentes, queimada com cigarros e por fim atirada para um nojento poço de vários metros de profundidade, ainda viva, foi uma brincadeira que correu mal?... E que apenas merece como discreta penalização 11 a 13 meses de internamento numa instituição de acolhimento, em regime semi-aberto?
O que teria sido preciso mais?
Prolongar a brincadeira, mais ainda?
Que tal esquartejar o cadáver... ou talvez comer-lhe as entranhas? Seria, ainda, uma brincadeira que foi longe de mais?
Mas o Juiz preocupou-se, também, em alertar para o facto de esta não ser uma sentença punitiva mas antes de socialização... E de Gisberta, alguém se lembrou dos simpáticos pormenores de socialização que durante tenebrosos dias os referidos assassinos se divertiram a ministrar a seu bel prazer, na tal brincadeira que correu mal?
Até os advogados de defesa, intervenientes directos nesta farsa, quiseram dar o ar da sua graça neste argumento felliniano, infelizmente bem real... um achou que devia processar o Estado Português, outro referiu que esta sentença permitia ao assassino encarar um projecto de vida...
Talvez Gisberta gostasse de ter podido encarar, também ela, um projecto de vida e não um pesadelo animalesco de morte torturada em que, certamente, muitos dos seus gritos uivados de forma sangrenta, foram cobertos pelo gargalhar animalesco dos seus algozes, todos perfeitamente conscientes do que estavam a fazer.
Lamento não ter ouvido, neste momento, muitas daquelas instituições, vulgo partidos políticos que, nestas ocasiões, se costumam arvorar em defensores exclusivos dos perseguidos e oprimidos... talvez tenham já entrado em época estival!
Lamento não ter ouvido a Igreja, enquanto instituição, teoricamente defensora máxima dos oprimidos, dos marginalizados, dos injustiçados, dos violentados, solidarizar-se com a vítima...
Lamento tudo isto que me enoja e enraivece!
Mas já podemos todos, de forma aparentemente tranquila, regressar à praia, cantando e rindo, para disfrutar os prazeres que uma estivalidade tranquila proporciona... apanhar sol, bronzear, mandar uns piropos, comer algum marisco, desde que o orçamento familiar o permita, discutir futebol e beber uns copos com os amigos... que tudo voltou à normalidade... o caso terminou, foi julgado e tudo ficou em paz.
Não!
Lamento, mas não é assim!
Lamento, mas em tranquilidade eu não fico... ia quase a escrever “enquanto justiça não for feita”... mas um esgar ácido de revolta mesclado com acidez e nojo toldou-me o sarcástico sorriso sofrido que se desenhava...
Que justiça?... a do Sistema?!
Lamento... mas não consigo entender nem esquecer!
in "O Primeiro de Janeiro"
Lamento, mas não vou seguir a estratégia do politicamente correcto, omitindo a questão e preferindo sentar-me numa esplanada a saborear um gelado, em frente ao mar, enquanto debito generalidades, sobre os temas da actualidade, seguindo os ditames de uma consciência pública que se fragiliza e grita quando convém e se cala, quando mais conveniente é!
Lamento, mas não vou por aí!
Lamento, mas não vou assobiar para o lado, argumentando que “está calor”, “ninguém quer ler crónicas desagradáveis e pesadas, quando o calor aperta e o convite é explicito para o divertimento e a displicência”. Não usarei esse argumento falacioso!
Lamento, mas nem sequer me vou atrever a alegar que justiça foi feita, porque eu sei que não é verdade!
Lamento, por Gisberta.
Lamento, por os media terem dado muito menos divulgação à resolução do colectivo de juízes do Tribunal de Família e Menores do Porto que decidiu as medidas que iriam ser aplicadas aos assassinos de Gisberta, do que a eventos bem menos importantes, talvez porque vendem mais ou porque não interessaria acordar uma consciência fascinada com o conflito israelo-libanês ou com a problemática dos incêndios em Portugal! Sem querer fugir ao fio condutor, mas porque é uma observação que urge ser feita e que, estranhamente não vi ninguém efectuar... Alguém reparou que durante o Mundial de Futebol, praticamente não houve incêndios em Portugal quando, por diversas vezes, os termómetros atingiram, em várias localidades, os 30 e os 40 graus?
Mas deixemos este reparo breve, quase em nota de rodapé e regressemos, uma vez mais e sempre, ao caso Gisberta.
Lamento, por tudo isto, mas e principalmente, por Gisberta, que não conheci, mas em quem não deixo de pensar, após o seu brutal assassinato, com requintes de malvadez, por gente que o Sistema decidiu inocentar. E se por acaso me tivesse esquecido do animalesco assassinato, se por acaso não continuasse a usar o exemplo, como “case study” em todas as conferências que efectuo, com o intuito de efectuar um permanente remember me, se por acaso, dizia, me tivesse esquecido... tinha sido violentamente acordado para a realidade, da forma mais insana e hipócrita, aquando da decisão do tribunal... aliás, cumprindo a prévia decisão do Sistema!
Os 13 assassinos foram condenados (premiados) a medidas tutelares de internamento em centros educativos por períodos que vão dos 11 meses – aplicada a cinco assassinos – aos 13 meses – aplicada a seis outros assassinos –, todas elas cumpridas em regime semi-aberto. Ainda dois outros foram obrigados, durante um ano, a frequentar a Escola e a ter acompanhamento educativo... Ocorre-me perguntar, sarcasticamente, como se pode condenar alguém a frequentar a Escola... quando a mesma frequência já é obrigatória por Lei... Ou desconhecerá o Sistema que o ensino escolar é obrigatório, nas faixas etárias referidas?
É este o preço de uma vida, no caso em apreço de Gisberta, nascida a a 5 de Setembro de 1960 em S. Paulo, no Brasil e assassinada no Porto, em Portugal, em Fevereiro de 2006 e de novo assassinada, agora pelo Sistema, em Julho de 2006.
11 a 13 meses...
Lá bem no fundo, no mais recôndito do meu ser, eu sabia que o Sistema ia ganhar, perversamente... mas não queria acreditar.
Nem sequer detectei indícios quando o julgamento foi marcado em tempo recorde.
Tão pouco vislumbrei pistas do desfecho hediondo, quando alguns jornalistas foram anunciando, em tom de breve referência, que a audição das testemunhas iria ser feita muito rapidamente.
Lamento por tudo isto e por todo este tenebroso desfecho.
E ainda houve quem dissesse, do alto da sua suprema sapiência, que teria sido “uma brincadeira que correu mal”...
Uma brincadeira que correu mal?
Torturar, com requintes de extraordinária malvadez e perversidade um ser vivo, durante ininterruptos dias?
Esbofeteada, esmurrada, cuspida, insultada, violentada, penetrada com objectos contundentes, queimada com cigarros e por fim atirada para um nojento poço de vários metros de profundidade, ainda viva, foi uma brincadeira que correu mal?... E que apenas merece como discreta penalização 11 a 13 meses de internamento numa instituição de acolhimento, em regime semi-aberto?
O que teria sido preciso mais?
Prolongar a brincadeira, mais ainda?
Que tal esquartejar o cadáver... ou talvez comer-lhe as entranhas? Seria, ainda, uma brincadeira que foi longe de mais?
Mas o Juiz preocupou-se, também, em alertar para o facto de esta não ser uma sentença punitiva mas antes de socialização... E de Gisberta, alguém se lembrou dos simpáticos pormenores de socialização que durante tenebrosos dias os referidos assassinos se divertiram a ministrar a seu bel prazer, na tal brincadeira que correu mal?
Até os advogados de defesa, intervenientes directos nesta farsa, quiseram dar o ar da sua graça neste argumento felliniano, infelizmente bem real... um achou que devia processar o Estado Português, outro referiu que esta sentença permitia ao assassino encarar um projecto de vida...
Talvez Gisberta gostasse de ter podido encarar, também ela, um projecto de vida e não um pesadelo animalesco de morte torturada em que, certamente, muitos dos seus gritos uivados de forma sangrenta, foram cobertos pelo gargalhar animalesco dos seus algozes, todos perfeitamente conscientes do que estavam a fazer.
Lamento não ter ouvido, neste momento, muitas daquelas instituições, vulgo partidos políticos que, nestas ocasiões, se costumam arvorar em defensores exclusivos dos perseguidos e oprimidos... talvez tenham já entrado em época estival!
Lamento não ter ouvido a Igreja, enquanto instituição, teoricamente defensora máxima dos oprimidos, dos marginalizados, dos injustiçados, dos violentados, solidarizar-se com a vítima...
Lamento tudo isto que me enoja e enraivece!
Mas já podemos todos, de forma aparentemente tranquila, regressar à praia, cantando e rindo, para disfrutar os prazeres que uma estivalidade tranquila proporciona... apanhar sol, bronzear, mandar uns piropos, comer algum marisco, desde que o orçamento familiar o permita, discutir futebol e beber uns copos com os amigos... que tudo voltou à normalidade... o caso terminou, foi julgado e tudo ficou em paz.
Não!
Lamento, mas não é assim!
Lamento, mas em tranquilidade eu não fico... ia quase a escrever “enquanto justiça não for feita”... mas um esgar ácido de revolta mesclado com acidez e nojo toldou-me o sarcástico sorriso sofrido que se desenhava...
Que justiça?... a do Sistema?!
Lamento... mas não consigo entender nem esquecer!
in "O Primeiro de Janeiro"
terça-feira, 28 de novembro de 2006
Os meus alunos...
Com o passar dos anos de docência no Ensino Superior, fui aprendendo a identificar as técnicas, os rituais e a descodificar os registos que os meus alunos utilizam para falar comigo.
Não que seja um professor distante ou de difícil abordagem! Sempre fiz questão de criar e intensificar uma relação aberta com os meus alunos, dinamizando uma cumplicidade, que num primeiro momento os surpreende e depois os satisfaz, não significando, contudo, permissividade nos momentos de avaliação, que defendo exigentes e formais.
É possível ensinar sorrindo e com alguma irreverência, tentando desconstruir o estereótipo de que o professor do Ensino Superior tem de ser inatingível, impenetrável, doutoral, cinzento e quase esfíngico. Muito menos é necessária a pose de desdém, do alto de uma aparente sapiência, como que insultado pelas infelizes criaturas que ousaram incomodar o douto docente na sua caminhada de excelsa produção intelectual.
O Ensino Superior, em Portugal, para atingir lugar de pleno direito na aldeia científica global a que pertencemos, tem de ser exigente, transparente, assertivo e permanentemente actualizado.
Talvez por isso, a minha dupla postura com os discentes!
Dizia, acima, que aprendi a descodificar as mais diversas técnicas que se vêm repetindo e, por vezes, inovando com o tempo, que os meus alunos utilizam para me confrontarem com as suas dúvidas legítimas. E não me refiro a questões acerca da matéria leccionada!
São todas as outras, aquelas que implicam os tais rituais que aprendi a identificar com o tempo.
São olhares que se trocam durante as aulas, fugidios, que logo depois se desviam, com timidez, como que pedindo desculpa pela ousadia.
São posturas tensas, de quem quer e precisa de perguntar, mas que se encontra condicionado pela timidez gerada pelo próprio tema, que se supõe intocável.
É o corpo que, de repente, passa a não caber na cadeira, que muda de posição constantemente, intranquilo, preso de um frenesim que não se controla.
É um respirar mais agitado e um afogueado da face…um não encontrar lugar para as mãos que não param, irrequietas.
É um “preciso de ajuda”, tenso, preocupado, quase aflito! Todo um ritual de posturas, de olhares, de gestos suados…E, num repente, enfim ousado e tão estudado, tudo se resume à frase mais repetida, ciciada, de alguém que se aproxima e, com palavras tímidas, diz em surdina “Professor, tenho um problema na sua área”, quase pedindo desculpa pelo atrevimento!
Com esta expressão, arrancada a ferros, torturada, aflita, resumem todas as dúvidas, o desconhecimento, os tabus e os mitos que o Sistema e a Sociedade têm permitido perpetuar, na área das Sexualidades.
É o medo da ignorância, condicionado pela ousadia envergonhada...
São os mitos que se construíram e perpetuaram ao longo das gerações, geradores de ansiedade verdadeira e asfixiante, jamais descodificados com naturalidade e clareza.
São as dúvidas, genuínas, que se avolumam com os estereótipos que a Modernidade vende à exaustão.
É, enfim, todo o desconhecimento, natural, de quem não nasceu ensinado, e que não tem a quem perguntar, a quem acorrer, para saber.
É esta a nossa Sociedade que, travestida de modernidade, ousa ainda impor a hegemonia do silêncio, no que se refere às Sexualidades, impedindo oportunidades e espaços para as perguntas, dúvidas e incertezas, educando para os tabus e o pudor, fomentando a vergonha angustiada, daquilo que não se fala!
in "O Primeiro de Janeiro"
Não que seja um professor distante ou de difícil abordagem! Sempre fiz questão de criar e intensificar uma relação aberta com os meus alunos, dinamizando uma cumplicidade, que num primeiro momento os surpreende e depois os satisfaz, não significando, contudo, permissividade nos momentos de avaliação, que defendo exigentes e formais.
É possível ensinar sorrindo e com alguma irreverência, tentando desconstruir o estereótipo de que o professor do Ensino Superior tem de ser inatingível, impenetrável, doutoral, cinzento e quase esfíngico. Muito menos é necessária a pose de desdém, do alto de uma aparente sapiência, como que insultado pelas infelizes criaturas que ousaram incomodar o douto docente na sua caminhada de excelsa produção intelectual.
O Ensino Superior, em Portugal, para atingir lugar de pleno direito na aldeia científica global a que pertencemos, tem de ser exigente, transparente, assertivo e permanentemente actualizado.
Talvez por isso, a minha dupla postura com os discentes!
Dizia, acima, que aprendi a descodificar as mais diversas técnicas que se vêm repetindo e, por vezes, inovando com o tempo, que os meus alunos utilizam para me confrontarem com as suas dúvidas legítimas. E não me refiro a questões acerca da matéria leccionada!
São todas as outras, aquelas que implicam os tais rituais que aprendi a identificar com o tempo.
São olhares que se trocam durante as aulas, fugidios, que logo depois se desviam, com timidez, como que pedindo desculpa pela ousadia.
São posturas tensas, de quem quer e precisa de perguntar, mas que se encontra condicionado pela timidez gerada pelo próprio tema, que se supõe intocável.
É o corpo que, de repente, passa a não caber na cadeira, que muda de posição constantemente, intranquilo, preso de um frenesim que não se controla.
É um respirar mais agitado e um afogueado da face…um não encontrar lugar para as mãos que não param, irrequietas.
É um “preciso de ajuda”, tenso, preocupado, quase aflito! Todo um ritual de posturas, de olhares, de gestos suados…E, num repente, enfim ousado e tão estudado, tudo se resume à frase mais repetida, ciciada, de alguém que se aproxima e, com palavras tímidas, diz em surdina “Professor, tenho um problema na sua área”, quase pedindo desculpa pelo atrevimento!
Com esta expressão, arrancada a ferros, torturada, aflita, resumem todas as dúvidas, o desconhecimento, os tabus e os mitos que o Sistema e a Sociedade têm permitido perpetuar, na área das Sexualidades.
É o medo da ignorância, condicionado pela ousadia envergonhada...
São os mitos que se construíram e perpetuaram ao longo das gerações, geradores de ansiedade verdadeira e asfixiante, jamais descodificados com naturalidade e clareza.
São as dúvidas, genuínas, que se avolumam com os estereótipos que a Modernidade vende à exaustão.
É, enfim, todo o desconhecimento, natural, de quem não nasceu ensinado, e que não tem a quem perguntar, a quem acorrer, para saber.
É esta a nossa Sociedade que, travestida de modernidade, ousa ainda impor a hegemonia do silêncio, no que se refere às Sexualidades, impedindo oportunidades e espaços para as perguntas, dúvidas e incertezas, educando para os tabus e o pudor, fomentando a vergonha angustiada, daquilo que não se fala!
in "O Primeiro de Janeiro"
O peso de dizer "Amo-te"!
Vivemos numa Sociedade despudoradamente plástica!
Pronto!
Se o pensei, escrevi-o. Se está escrito, está assumido!
Senão, vejamos…
Vivemos numa sociedade em que somos constantemente bombardeados com estereótipos que os media alardeiam, referenciais utopicamente inatingíveis, ainda que hiperpresentes e à distância de um olhar, condicionando em permanência as vivências de cada um.
Estamos, todos, sob a tirania do “perfect body and no mind”, e a angústia do inatingível tortura-nos em permanência.
É o mito da perfeição, que usa sabiamente todos os nossos sentidos, condicionando ferozmente procedimentos, atitudes e ideais.
E isso reflecte-se, perversamente, no âmbito das nossas relações, na janela da nossa afectividade.
É a era da World Wide Web, em que o amanhã rapidamente se torna hoje e vertiginosamente ontem, transmutando as certezas logo em probabilidades e depois em inverdades… e isso condiciona as nossas vivências afectivas.
A época é de incertezas, senão de contradições, gerando um elevado potencial de insegurança.
E, como tal…não há tempo!
Tudo tem de ser rápido e prático, a busca do dito amor perfeito surge aparentemente extenuante, atirando para a prateleira dos referenciais museológicos a procura, hoje tornada insana, do “foram felizes para sempre”!
As relações tornaram-se plásticas e descartáveis… e por isso práticas e rápidas.
Assumidamente não vinculativas…propagando um quase temor de vinculação afectiva.
Isto porque construir uma relação implica tempo, disponibilidade, investimento, paciência, confiança, negociação, aceitação, dádiva,…ou seja, a queda das máscaras que todos criámos, com o intuito de protecção…e, sem elas ficamos frágeis.
Amar fragiliza e a modernidade não se compadece com fragilidades!
Dessa constatação advém a cómoda justificação da plasticidade moderna das emoções.
Já para não referir a aparentemente consensualidade quanto à genitalização das vivências.
Parece não haver tempo para a ternura e para o carinho, temendo-se o peso avassalador de dizer: Amo-te!
E isto é um fenómeno que não se direcciona apenas para algumas faixas etárias da nossa aldeia global, atingindo transversalmente e de modo preocupante todos estratos sociais e etários.
Urge inverter a situação!
Urge criar espaço e tempo para dizer: Gosto de ti!
Amar e ser amado tem de continuar a ser um desejo universal, sem medo dos custos… até porque o reverso da medalha é a solidão afectiva…rodeada de uma enorme e gélida imensidão de pequenos nadas.
in "O Primeiro de Janeiro"
Pronto!
Se o pensei, escrevi-o. Se está escrito, está assumido!
Senão, vejamos…
Vivemos numa sociedade em que somos constantemente bombardeados com estereótipos que os media alardeiam, referenciais utopicamente inatingíveis, ainda que hiperpresentes e à distância de um olhar, condicionando em permanência as vivências de cada um.
Estamos, todos, sob a tirania do “perfect body and no mind”, e a angústia do inatingível tortura-nos em permanência.
É o mito da perfeição, que usa sabiamente todos os nossos sentidos, condicionando ferozmente procedimentos, atitudes e ideais.
E isso reflecte-se, perversamente, no âmbito das nossas relações, na janela da nossa afectividade.
É a era da World Wide Web, em que o amanhã rapidamente se torna hoje e vertiginosamente ontem, transmutando as certezas logo em probabilidades e depois em inverdades… e isso condiciona as nossas vivências afectivas.
A época é de incertezas, senão de contradições, gerando um elevado potencial de insegurança.
E, como tal…não há tempo!
Tudo tem de ser rápido e prático, a busca do dito amor perfeito surge aparentemente extenuante, atirando para a prateleira dos referenciais museológicos a procura, hoje tornada insana, do “foram felizes para sempre”!
As relações tornaram-se plásticas e descartáveis… e por isso práticas e rápidas.
Assumidamente não vinculativas…propagando um quase temor de vinculação afectiva.
Isto porque construir uma relação implica tempo, disponibilidade, investimento, paciência, confiança, negociação, aceitação, dádiva,…ou seja, a queda das máscaras que todos criámos, com o intuito de protecção…e, sem elas ficamos frágeis.
Amar fragiliza e a modernidade não se compadece com fragilidades!
Dessa constatação advém a cómoda justificação da plasticidade moderna das emoções.
Já para não referir a aparentemente consensualidade quanto à genitalização das vivências.
Parece não haver tempo para a ternura e para o carinho, temendo-se o peso avassalador de dizer: Amo-te!
E isto é um fenómeno que não se direcciona apenas para algumas faixas etárias da nossa aldeia global, atingindo transversalmente e de modo preocupante todos estratos sociais e etários.
Urge inverter a situação!
Urge criar espaço e tempo para dizer: Gosto de ti!
Amar e ser amado tem de continuar a ser um desejo universal, sem medo dos custos… até porque o reverso da medalha é a solidão afectiva…rodeada de uma enorme e gélida imensidão de pequenos nadas.
in "O Primeiro de Janeiro"
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