
Dois rostos cruzam-se na multidão...
Sem nome, sem idade, sem relação...
São apenas dois rostos, que se cruzam na multidão.
Fruto do acaso, talvez.
Coincidência?
Quem sabe...
A força do destino?
Custa-me a acreditar em predestinação ou em desígnios...
Mérito de uma qualquer entidade divina?
Cada vez mais me é difícil atribuir, de forma facilitista e desresponsabilizadora, a uma qualquer entidade supostamente divina, a autoria de momentos e acontecimentos que sucedem, na vida de cada um, em catadupa.
Deus, Buda ou Alá, a existirem, não teriam tempo para desperdiçar com estes biliões de pequenas minudências que sucedem a cada segundo da existência universal, mesmo que possam significar a diferença.
E os anjos da guarda não têm competências nem poderes para conseguir alterar a trajectória do ser humano...
Sinceramente não vou por aí!
Nem sequer acredito que seja possível atribuir estes fenómenos ao desígnio de uma qualquer força cósmica ou à atracção electromagnética que une ou repele entidades.
Aconteceu, tão só e apenas.
Segundo a teoria probabilística, algo sucedeu para que estes mesmos dois rostos e só estes rostos, naquele momento único, nem um segundo a mais ou a menos, se cruzassem, naquele dia, naquela hora, naquele minuto, naquele preciso e conciso segundo.
Se um qualquer grão de poeira cósmica se tivesse deslocado, de forma ínfima, para um lado ou outro, num determinado momento, seria suficiente para pulverizar a probabilidade de existência deste encontro. Em termos práticos, um telefonema que surge, um atacador que urge atar, uma migalha que se apanha, um gesto de ajeitar um cabelo rebelde, uma saudação mais demorada a um vizinho, poderiam ter significado a diferença.
Mas não!
São dois rostos que se cruzam na multidão.
Anónimos.
Mas, mais ainda, são dois rostos que se cruzam, se fitam, se olham, se vêem!
E tudo isto marca a diferença.
A partir deste primeiro segundo do epifenómeno, estão reunidas as condições para que este possa ser o momento alfa de uma qualquer coisa...
A partir deste momento, tudo pode acontecer.
São dois rostos que se cruzam na multidão...
Mas são, também, dois rostos com um passado, um presente e que desejam, naturalmente, ter um futuro, que até pode vir a ser em conjunto...
Para estes dois rostos que se cruzam na multidão, o futuro pode estar a começar ali, naquele preciso momento e este encontro pode vir a representar um início...Pode vir a tornar-se um marco para mais tarde recordar com um sorriso de nostalgia e uma troca de olhares carregados de significantes e de significados.
São dois rostos que se cruzam na multidão, eventuais diferentes maneiras de ser e estar, de pensar, de agir, de reagir, de gostar, de desejar, de amar... certamente um diferente Património de Afectos.
Talvez não sejam, já, apenas dois rostos que se cruzam na multidão mas são, certamente, duas vivências, duas realidades, dois mundos...
As imponderabilidades acontecem mas, o Mundo continua a rolar, na sua altaneira inevitabilidade!
Manuel Damas in "O Primeiro de Janeiro" a 20/7/2008