segunda-feira, 9 de junho de 2008

"COMEÇAR DE NOVO!"


Começar, de novo...
No fim de uma qualquer relação é imperativo parar para pensar, para fazer o balanço, para reflectir.
Acima de tudo, para reestruturar.
Ter tempo e vontade para querer, poder e saber arrumar as recordações, porque as há, sempre.
É a oportunidade, o momento para encaixotar os cenários, os cheiros, os toques, as sensações, as imposições, as devoções, os carinhos, os significados e os significantes, as etiquetas que remetem para os mais diversos capítulos e cenas que constituíram a relação, que terminou.
E essa é uma verdade que é imperativo não esquecer, até porque serve de impulso, de ferramenta, de estratégia, para conseguir concretizar o que se pretende...encerrar, definitivamente, uma relação que terminou.
Após cada relação que termina, nada fica como dantes.
O tempo passou.
O tempo mudou.
São as recordações que, habitualmente, custam a deixar para trás.
Estão presas à pele, estão dentro da pele, fazem, já, parte da própria pele...
Até o próprio passado teima em pregar partidas, permanentemente, em despoletar recordações, de forma imprevista e imprevisível, em qualquer momento, mesmo nos mais improváveis e estranhos, nos mais pequenos pormenores do dia a dia.
São recordações, que saltam, que brotam, indomáveis.
São momentos de Afectos que voltam ao de cima, da penumbra dos tempos...
E doem...
E magoam...
Tenho que concordar que recordar é viver, mas não é sadio, não basta.
E as recordações explodem, e implodem, muitas vezes em catadupa.
Dos momentos, uns deliciosos, outros nem por isso. Uns mais conturbados, outros saborosos, um filme a recordar, um baú de sensações, emoções, devoções e por vezes, mesmo, imposições.
Mas urge fechar.
Urge fechar tudo!
Empacotar!
Encerrar!
Deixar ficar no escuro, na penumbra, como se de uma sala de recordações, de momentos, de uma outra qualquer época e realidade se tratasse. Porque é mais um acervo, a constituir e a construir o património próprio de Afectos, inquestionável e inviolável.
Inegável!
Indestrutível!
Imutável mas, acima de tudo, assimilável e ultrapassável...
Depois é preciso, é justo, é imperativo... renascer!
Fazer a reconstrução definitiva, para ser possível avançar.
Fazer a paz com o passado.
Reaprender a olhar, a ver, a sorrir, a caminhar, a saborear, a evoluir...em frente.
De início a sós...preferencialmente.
Protectoramente.
Saudavelmente.
Ergonomicamente.
Pedagogicamente.
Cortar, tranquilamente, o cordão umbilical com o passado.
Um crescer em plenitude, jamais negando o que ficou para trás, jamais esquecendo a aprendizagem, a aquisição, até porque “Nada seria sem o meu passado, mas nada seria, também, se me tivesse contentado com ele”.
É fazer o luto.
É o lamber das feridas, porque as há sempre e induzir, de forma assertiva, a sua cicatrização.
E depois...
Depois urge renascer.
Abrir e criar janelas de oportunidade.
Dar direito, oportunidade e espaço à luz.
Começar de novo.
E esse é, sem dúvidas, o grande desafio.
Começar, de novo.
Conseguir tirar do passado novas competências, novas estratégias para avançar, evitando cometer os mesmos erros, porque errados e antigos.
Começar, de novo.
Voltar a querer.
Voltar a crer.
Voltar a querer investir.
Voltar a querer acreditar.
Voltar a ter vontade de amar...o que é um desafio, pesado, sofrido, ínvio, perigoso...quase desacreditado.
Mas que se impõe!
Por dignidade, por justiça, por merecimento, por sentido de sobrevivência.
Estar disponível.
Estar disposto.
Estar pronto...
Para voltar a acreditar.
Para voltar a investir.
Para voltar a sonhar.
Para voltar a crescer...em relação.
Também aqui o passado é traiçoeiro porque, de forma sibilina, induz a comparações, branqueando os defeitos e hipervalorizando as qualidades de um passado que se quer tranquilamente distante. E esta é uma perigosa tentação porque impeditiva de um avanço, de um progresso, de um corte, quiçá epistemológico.
Mas urge continuar.
Urge avançar.
Urge voltar a ter vontade de viver.
De crescer.
De amar.
De ser feliz...assumidamente, de forma assertiva e em tranquilidade.
Decididamente.
Em paz consigo próprio e com o passado.
Enfim...começar de novo!
Manuel Damas in "O Primeiro de Janeiro" a 9/6/2008

60 comentários:

♥♫♪@nn@♫♪♥ disse...

oba !
welcome ;)

♥♫♪@nn@♫♪♥ disse...

comento curtinho
para deixar espaço
à bicha que se vai formar
aqui à porta !

Olá!! disse...

Esta ainda não tinha lido.

Rui Manuel Costa disse...

Olá de novo...professor!
Perante algumas circunstâncias da sua longa ausência, recordei as sábias e doutas palavras de um brilhante psicanalista português,que o Professor, concerteza conhece, de seu nome António Coimbra de Matos.

" A Alegria e a Dor"

"A alegria ou euforia é o encontro festivo com o outro. É o prazer da inundação do ser no abraço libidinal.
E assim, definimos o investimento do objecto como um movimento da líbido para o outro, que, no seu percurso, investe o próprio.
O prazer vem portanto da actividade de estar com... Nasce do exercício da relação libidinal.
Por outras palavras: o investimento objectal acompanha-se de um investimento narcísico. É o estado amoroso.

A dor, a tristeza, é o deserto relacional. A ausência do outro para investir; o que reflexamente desinveste o próprio.
É a hemorragia da líbido através da ruptura da relação. Rompido o sistema relacional Self-objecto, o indivíduo sangra e sofre.
Perdido o objecto, não há apelo ao movimento libidinal. É então a queda da líbido, que, para não se esgotar na sangria da tristeza, abandona o Self e se refugia no Id (como a seiva das árvores, durante o Inverno: reflui para as raízes).
Para não cair na apatia, na impotência e no desespero, pela certeza da irreversibilidade da perda e a possibilidade da construção imaginária de um novo alvo. E, deste modo, sair do investimento nostálgico do objecto perdido.

A elaboração da perda faz-se, assim, pela mentalização do desprazer.
Fazer algo da dor: criar, pela invenção do imaginário, no espaço dolente da falta.
Sonhar... enquanto não se pode realizar.
Jamais desistir. Porque a "morte", essa, é "vazia; nem dor nem alegria".
Viver, apesar de... apesar da perda, apesar de tudo."



Parte de um texto de António Coimbra de Matos in "A Depressão"


Perdoe-me o professor, pela extensão do texto, e os meus colegas do Blog "psisalpicos" pela usurpação do texto!
Grande abraço e...bem vindo ...de novo!

FM disse...

Que o recomeço seja Brilhante e com resultados ainda mais Intensos... em Alegria.
Abraço.

Patrícia disse...

bem-vindo
pensei que se tinha esquecido que nós estávamos por aqui à sua espera...hum

Manuel Damas disse...

Bicha????
Oh santa!!!!
Isso cá em Portugal é outra coisa...
:))))))))))))))))))))))))))))))))))))))

Manuel Damas disse...

E espero que tenha gostado Olazinha do meu coração...

Manuel Damas disse...

Obrigado Rui pelo carinho e acima de tudo pelas palavras doutas de Coimbra de Matos...

Manuel Damas disse...

Obrigado Francisco e um grande abraço.

Manuel Damas disse...

Cá estou, lindo, maravilhoso e poderoso...mais ainda...como se isso fosse possível?!
:))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))

Mize disse...

Professor: lindo e maravilho????desculpe lá, mas como sua amiga quero ter a consciencia tranquila: não se deixe enganar.

Pearl disse...

Gosto de o poder ler, novamente. E desculpe-me mas, gosto de o sentir assim, em "carne viva".

BlueVelvet disse...

Admiro a capacidade que tem de se expor assim, e conheço bem esse luto e esse lamber de feridas.
Depois disso, ou se soçobra, ou se renasce.
Eu renasci.
o Prof. renasceu.
Que bom.
Sinal que somos uns sobreviventes.
Fico feliz por si, acredite.
Beijinhos,veludinhos e cetins

BlueVelvet disse...

Sem saber que tinha voltado, fiz um post hoje, que é mesmo a sua cara:)))

Sandra T disse...

Ao ler o texto veio-me à cabeça a imagem da Fénix, linda, imponente, orgulhosa, a sacudir as penas, esticar as pernas e a voar!

bisturi disse...

HELLO....
PASSEI POR AQUI SÓ PARA DESEJAR BOM REGRESSO...
É QUE AS LÃMINAS DO MEU BISTURI ESTAVAM A FICAR ENFERRUJADAS POR FALTA DE USO...
VOU JÁ COLOCAR UMA NOVINHA EM FOLHA ...
DEPOIS NÃO SE QUEIXE DAS BISTURIZADAS!!!EHEHEHE
BO FERIADO...
EU NÃO CELEBRO DIAS DA "RAÇA" COM TRAÇA....

Manuel Damas disse...

Zeuzinha...
Eu, que sou um homem modesto defino-me e muito simples palavras...

Deliciosamente magnífico!
:)))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))

Como disse Oscar Wilde..

"Nada tenho a declarar, excepto a minha genialidade!"

:))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))

:PPPPP

Manuel Damas disse...

Pois, "Pearl"...se eu escrevo, sinceramente, acho que escrevo muito melhor quando estou dorido .
Um beijinho grande

Manuel Damas disse...

Ja tinha saudades dos "Beijinhos, veludinhos e cetins".
Um beijinho grande para si também minha querida Blue.

Manuel Damas disse...

Mas cada vez mais doi renascer, Sandra.Um beijinho grande

Manuel Damas disse...

Oh Bisturi...desculpe mas não percebi...
as suas lâminas "estavam" ou "estão" enferrujadas?!
:)))))))))))))))))))))))))))))))))))))
Um grande abraço

Pinto disse...

Não posso deixar de te admirar por este esplendido texto...É a Essência do luto por qualquer perda. Revejo-me nestas palavras quando ha momentos em q nada existe: só e apenas dor. Dor e raiva, porque tbm a tenho e por vezes cega-me...terrível! O desespero apodera-se e não se vislumbra Luz porque somos submersos por lembranças q pesam, por sorrisos q se precisam, por brincadeiras eternas, por Afectos q eram tudo e q nao passam de recordações, por abraços q nos davam toda a força do mundo pra enfrentarmos o dia seguinte, pelo Amor q nutrimos e, ainda nutrindo, nao temos as suas representaçoes fisicas...
...Mas apesar de tudo...custa chorar porque isso é enfrentar algo para o qual eu nao estava a espera, nao queria, nao precisava, não pensava, nao suspeitava q algum dia pudesse acontecer. Mas terei de chorar...
Finalmente de férias terei mais tempo para ir arranjando o desarranjado cá dentro.
Um grande abraço, com admiração, para ti.

Ah!, não posso deixar de enviar um sorriso ao comentário do Rui Manuel Costa! A Psicanálise é, sem duvida, uma "ciência" muito para lá da Ciência... :-) Vamos ver se me acerto para enveredar por esse ramo.

LeniB disse...

Acredito sinceramente que, no meu caso, passei anos a lutar, até ter percebido que afinal estava era a fazer um luto prolongado.
As memórias ficam...há que saber geri-las...empacotá-las...
bjs

Sunshine disse...

Li pausadamente o que escreveu. Um dia, há alguns meses atrás disse-me de modo bastante resumido o mesmo. As suas palavras, e as de muitas outras pessoas amigas, têm-me guiado durante estes últimos meses. As suas de um modo especial, porque estão escritas e posso relê-las quando preciso de uma espevitadela.
Não lhe posso retribuir os conselhos que me deu quando precisei ( todas as palavras que poderia escrever conhece-as melhor que ninguém, afinal é a sua especialidade), apenas lhe posso dizer que pode contar com o meu afecto.
E toca a começar de novo, não é isto que se chama viver?
Beijinhos com raios de Sol

navegadora disse...

A vida...que estranho mistério...a dor que causamos sem querer, a dor que nos causam, a procura da perfeição, a mistura de sentimentos, o "ir ao fundo e voltar", o sofrimento, a saudade...mas também o sorriso, a partilha, a natureza, a esperança...há dias para tudo e um pouco de tudo em todos os dias. Que sejemos capazes de sentir a cada momento aquilo que nos é necessário para "CRESCER", embora por vezes nos sintamos pequeninos e nos apeteça ficar no berço e no aconchego. Beijos e Boa semana.

Manuel Damas disse...

Meu querido pinto...enorme prazer me dás por uma vez mais te ler.
Pena tenho de te ler em sofrimento.
Arranja-te, aliás, reconstroi-te e, depois, quando estiveres pronto a começar de novo havemos de marcar mais uma tarde para, tão só e apenas, nos podermos dar ao luxo de palavrar em conjunto.
Abreijo

Manuel Damas disse...

As memórias estão e ficarão cá para sempre. O problema, o enorme problema é quando um gesto, um ruído, um cheiro, um olhar, traz tudo,de novo, ao de cima, com a frescura do ontem que se queria hoje...

Manuel Damas disse...

Os seus raios de sol, minha querida CC, fazem-me sempre sorrir, num esquizo de paz.
Obrigado

Manuel Damas disse...

Obrigado pelas palavras e pelo incentivo, navegadora.
Um beijinho grande e milhões de boas semanas para si.

Cristina disse...

"Começar de novo", custa e como custa! A uns mais que outros mas "dia traz dia" e a hora de recomeçar tá lá, não adianta fugir!

Tudo de bom! Mil beijinhos bem doces!!!

lumiere disse...

nunca valeu apena ficar na tristeza do passado
há que orgulhosamente erguer a cabeça e olhar em frente
e sobretudo saber aceitar a ajuda que nos querem dar

um abraço caro amigo

vsuzano disse...

nunca é começar de novo.... é apenas mudar de rumo...

abraço

joana disse...

Que o seu começar de novo lhe traga muitas coisas boas.
Beijinho grande professor

Rui Manuel Costa disse...

Caro Pinto,

Muito me apraz saber que há por aqui um colega!
E tem toda a razão, quando diz que a psicanálise é uma ciência para além da ciência!
Abraço

PS: Professor, desculpe o Off Topic!

Waldorf disse...

Damas!!!!!
Nelito, estas palavras fazem-me lembrar o meu acordar da mortalha!!!

Levantei-me só para te dizer que estou moribundo, mas não me esqueço de TI!!!!!

Waldorf disse...

Voltei para te deixar um abraço com todas as forças que consigo arranjar neste momento tendo em conta o meu estado de fraqueza debilitada!!!

Waldorf disse...

(não me sigas, porque não me vais encontrar!)

FUI

Maf_ram disse...

Os seus textos são magníficos!
Lê-los é um bálsamo!

Recomeçar... nunca parar...

Que das recordações ressalte o que de bom a vida proporcionou, e que que com elas também se aprenda... pelo menos, a não cair nos mesmos erros! Depois é levantar a cabeça, erguer os olhos e saborear o presente com os olhos no futuro.

Tudo de bom!

Sunshine disse...

Há festa lá no meu cantinho, gostaria de contar com a sua presença.
Beijinhos

Mary disse...

Força para esse recomeço...Coragem para o renascer e Luz para o seu caminho Professor!!!
Beijinhos

mr_rabbit disse...

boa tarde
de volta passei
li
e aqui estou a comentar

perder custa...
recomeçar tambem, mas nesta situação temos quase a certeza k poderemos voltar a ser felizes

um GRANDE abraço silencioso

Casemiro dos Plásticos disse...

Bem vindo de novo. já estive a ler os post's abaixo e as razões da sua pausa.
Nesta altura digo-lhe que faz bem em continua junta aqui da malta, há que levantar a cabeça e seguir em frente mesmo que custe, a malta é boa e ajuda de qualquer maneira.
abraço e boa semana.

macaw disse...

bem-vindo! :DDDD

excelente texto, como sempre!

um abraço forte e "bola pa frentchi cára", como dizem os meus amigos brazucas! :P

imagino que custe, mas lá dizem que com o tempo passa...!

bjiiinhos ;)

Manuel Damas disse...

Obrigado pelos beijinhos que retribuo minha querida Cristina.

Manuel Damas disse...

Como não fiquei na tristeza do passado, eis-me aqui de novo, lumiere, ainda que a velocidade moderada.
Um grande abraço

Manuel Damas disse...

Obrigado vsu.
Um grande abraço.

Manuel Damas disse...

Um beijinho grande, Joana e obrigado pelos votos que sei que são sinceros.

Manuel Damas disse...

Oh Rui...aqui as desculpas são desnecessárias.
Um garnde abraço

Manuel Damas disse...

Docas...tenho sentido a tua falta!!!!
Assim como a do Statler....

Manuel Damas disse...

Obrigado pelo carinho maf...

Manuel Damas disse...

CC,minha querida...lá irei!

Manuel Damas disse...

Um grande beijinho, mary e obrigado pela solidariedade.

Manuel Damas disse...

Um grande abraço e um sincero obrigado Mr_Rabbit

Manuel Damas disse...

Um grande abraço Casemiro e uma boa semana para si também

Manuel Damas disse...

Um beijinho grande maczinha...
:))))))))))

Gi disse...

O Tratado das Emoções

foi o que ficou aqui

ou o Diário de um Sobrevivente ...

Não o via de outra forma!

Um beijinho e bem regressado

Manuel Damas disse...

Acho mais adequado o "Diário de um Sobrevivente"...
Eu estou em falta consigo Gi mas rapidamente vou resolver a situação.
Um beijinho grande

Juannah disse...

Pela primeira vez que aqui passo, posso rever tantos sentimentos nestas palavras! A certeza das semelhanças humanas perturba-me! Todos nós sentimos alguma vez esses sentimentos, todos nossos passamos por experiências tão semelhantes que me atreveria até a dize-las iguais, apesar de as pensarmos de maneira difrente e fruto das nossas vivências pessoais! De facto assustam-me estas semelhanças e a tão conhecida frase faz cada vez mais sentido "Todos difrentes, todos iguais".
Parabens!

Manuel Damas disse...

Um beijinho, ju e seja bem vinda.
Pois...
Essa é a grande verdade universal...
Todos diferentes mas, mesmo assim...todos iguais.
Volte sempre...será bem recebida.