domingo, 26 de agosto de 2007

"INHOS"



Escrevo esta crónica no avião que me transporta de regresso ao Porto, proveniente de Nova Iorque.
Tentava entreter-me com algumas revistas que tinha trazido no intuito de controlar a ansiedade que sempre me assalta cada vez que viajo de avião, mais especificamente nos momentos de levantar e de aterrar, quando me veio parar às mãos um comentário acerca da entrevista efectuada pela jornalista Márcia Rodrigues, da RTP, ao embaixador do Irão em Lisboa.
Lembro-me de ter visto, por momentos, a referida entrevista e de ter ficado, num primeiro momento estupefacto e, depois, envergonhado!
A entrevistadora surgia toda de preto, com um vestido longo, triste e feio, de lenço na cabeça e umas luvas pretas...Vim posteriormente a saber que o traje e a pose de suposto decoro não tinham sido, sequer, exigência da embaixada.
Imediatamente recuei no tempo e revi o que considero um dos mais fantásticos e corajosos momentos em televisão e que deu brado na época, em fins da década de setenta, 79/80, penso eu. Nessa altura a polémica jornalista Oriana Fallaci, no início de uma entrevista realizada em Teerão, ao Aihatollah Kohmeini, tinha arrancado, de forma intempestiva, aquilo que designou por “trapos medievais” e que teriam sido exigência oficial, perante o olhar surpreendido do próprio Aihatollah, arriscando a continuação da mesma e fazendo perigar, inclusive, a própria vida.
Dir-me-ão...“Outros tempos”!
Mais complicados do que a década de setenta em Teerão?
“Maneiras de ser e estar diferentes”!
Certamente...Todavia a pretensa humildade balofa e a estupidez são sempre criticáveis, independentemente da época!
Mas esta introdução, que já vai longa, permite extrapolações, direccionando para o verdadeiro motivo desta crónica.
Estou farto de “inhos”...E, sobretudo, que se confunda educação com subserviência, quase sempre hipócrita.
Não podemos continuar a ser um País de supostas miniaturas.
Quem já não foi confrontado com a pergunta “Então o que vai ser hoje”?...E, nem sequer me vou deter na frase “o que vai ser?”...Vai? Mas se eu já estou, não vou para lado nenhum, pelo menos no momento em que preparo para comprar algo.
Logo a seguir, vem o terrível “É o jornalzinho”?
Não!
Não pedi nenhuma miniatura, nem nenhum jornal infantil. Por isso, não quero nenhum jornalzinho! Quero um jornal, em princípio o do costume, inteiro, grande.
Depois vem outra expressão assassina... “Quer um cafezinho”?
Não!
Quero um café, eventualmente curto, mas um café. Não o tal “cafezinho” que pressupõe, pelo enunciado, que seja pequenino, meiguinho, fofinho. Não é esse tipo de sensação de carinho que pretendo quando tomo café.
“Precisa de uma mesinha”?
Outro!
Não!
Não quero uma “mesinha”...Para isso ia para um infantário ou organizava uma visita ao “Portugal dos Pequeninos”! Sei que não sou alto, mas não preciso de miniaturas.
“Prefere a carninha? Olhe que o peixinho é fresquinho”!
Chega!
Quero um jornal!
Quero uma mesa!
Quero um café!
Por vezes prefiro carne, outras peixe, mas odeio que me perguntem se opto pelo “peixinho” ou pela “carninha”!
E recuso-me a escolher entre “o arrozinho” e “a batatinha”!
Irrita-me que haja uma tendência, quase nacional, para a minusculização depreciativa das entidades, animadas ou não! E, já agora que estou nesta fase quase catártica, acrescento...Detesto quando vejo cantar de olhos fechados, como que a dar ênfase à versão, tentado adquirir uma expressão facial de intensidade e profundidade, por vezes acompanhado de um esgar chorado, quase sofrido, como se de fado se tratasse e fosse necessário exibir todo o sofrimento do Mundo.
É esta “coisinha” aqui, “coisinha” acolá que me irrita, tirando-me do sério. É esta atitude menor, esta postura do “Desculpem-me por existir!” que terá que mudar para que possamos soerguer-nos da mediocridade, explodir para a modernidade e voltar a “dar mundos ao Mundo”...Tudo isto também para que, quando alguém chegar a Nova Iorque e, ao tentar esclarecer a proveniência com um “Portugal” enfático, não ter que acrescentar, num tom envergonhado, quase em surdina, perante um olhar de total desconhecimento...“perto de Espanha”!
E não me venham falar de novo do Saramago e dos seus dislates sobre iberismo, eventualmente produzidos num momento de emoção causado pelo seu novo-velho casamento.
O errado não está em ser português, bem pelo contrário, mas na forma pequenina, de falsa humildade, quase mesquinha, levada ao exagero e desprovida de veracidade, de o tentar ser!
E a mudança, passa por todos nós!
Manuel Damas in "O Primeiro de Janeiro" a 26/8/2007

19 comentários:

FM disse...

GOSTEI! Parabéns. FM

Manuel Damas disse...

Obrigado.

Patrícia disse...

adorei a crónica. não só pelo contudo mas pela forma irónica e sagaz com que foi escrita. mais uma vez prova que está de parabéns.
concordo que Portugal necessita de evoluir. e tal acto passa um pouco por todos nós. se algum dia viremos a ser o 5º Império?tenho as minhas longas dúvidas...mas há quem diga que onde há uma vontade há um caminho:-)

Patrícia disse...

conteúdo...peço perdão*

Manuel Damas disse...

Perdão de quê Patrícia???????
Deixe-se de coisas...
:)
Ainda bem que gostou da crónica.
Bjs

Cristina disse...

Li-a esta manhã entre uma música e outra e tive que a ler de fio a pavio. Brilhante, simplesmente brilhante. Agora só espero que chegue onde deve chegar. Contra mim falo porque exagero no "inho" e vou estar muito atenta.
Beijinhos e boa semana.

Manuel Damas disse...

Ora seja muito bem vinda...Já tinha saudades da sua carinhosa presença, meu anjo e dos seus posts amigos.
Volte...volte sempre!
Um beijinho

Mize disse...

Tive o privilégio de a ter lido antes. Agora reli. 5 estrelas

FM disse...

Esta Mizé um dia destes vai criar o clube "MD" (risos)... É apenas uma "pegadinha", como se diz em terras de além mar... Também atribuo 5 estrelas ou 6... (as 7 são só minhas)

joana disse...

Mais uma bela cronica,esta de parabens professor...
Só tive oportunidade de ler agora,mas gostei.
Quanto a Portugal,precisa de evoluir em tudo

Manuel Damas disse...

Obrigao, Maria José, pelo apoio e pela presença...sempre no momento certo!
:)

Manuel Damas disse...

Por falar em pegadinha, não imagina o sem número de ordinarices que me passou pela mente!
Mas não...eu sei que o menino é um "teaser"...Descubra lá esta...

Manuel Damas disse...

Obrigado, Joana, por mais essa meiguice!

FM disse...

Teaser, só para que saiba que "afinal" não sabe (quase) tudo... é uma espécie de separador curto... em linguagem rádiofónica...
Desta não estava à espera!?
(chama-se a isto levar a sardinha para a nossa rede)

Manuel Damas disse...

"Teaser" é, eventualmente também, aquele que irrita, pelo prazer de irritar!
Quanto a saber quase tudo, meu caro Fm, à medida que o tempo pássa e as pedras do meu castelo-protector vão caindo, deixando-me ver a realidade, cada vez, dizia, me convenço que não sei absolutamente nada...

FM disse...

Um dia destes irrito-me de irritar... e lá se vai alguma da piada... destas coisas...
Já dizia o outro; quando estiver "calado", aí sim é que será um problema...
Por outro lado, quando estiver a ser inconveniente... como acrescentava o outro; ficarei grato que me informe.

Manuel Damas disse...

Pronto...
Como vê é bem mais fácil tirá-lo do sério!!!
Oh homem, não se preocupe, a minha paciência é elástica! É o espírito de sacrifício de aturar os doentinhos...Esteja à vontade...
Quer falar sobre isso?(oh só pro tom paternalista)...

Francisco Moreira disse...

Estou "para o lento"... Não entendi nada.
Está a escrever á médico ou à sexólogo... Se calhar, nesta matéria de traduções, necessitarei do apoio do professor (risos).

Manuel Damas disse...

Bem...Já fizemos um "upgrade"???
Passámos a assinar os "posts" já não com um anónimo Fm, mas passámos a assinar Francisco Moreira!
Este homem vai a ministro...no mínimo!