domingo, 4 de novembro de 2007

VIOLENCIA JUVENIL


Três alunas do ensino secundário fotografaram e filmaram outras tantas colegas que tomavam banho nos balneários da Escola, após uma aula de Educação Física e exerceram chantagem, sob a ameaça de colocarem os filmes e as fotos na Internet.
Este tipo de notícias, relacionadas com a violência juvenil, começa a ser habitual, tendo tido o seu momento alto com o caso Gisberta e agora, muito mais recentemente, com o caso da Covilhã...chama-se a isto, pomposamente, Bullying!
Preocupa-me, todavia, que esta notícia se refira, especificamente, a raparigas de 12 e 13 anos e que o cenário do relato seja uma Escola EB 2/3.
Ou seja...
Início do ano lectivo, Portugal, 2007!
Podendo esta questão ser analisada sob as mais diversas perspectivas realço, de forma negativa, a faixa etária envolvida.
Crianças...
Mas, as criancinhas como as conhecemos, já não existem!
As criancinhas que terna e docemente enchem o nosso imaginário, desapareceram!
“Óbvio!”, responder-me-ão...”Cresceram! Acontece a todos. Cumpriram a função sociológica e fisiológica para que foram criadas... Nascer-Crescer-Morrer!”
Não!
Não é essa perspectiva a que me refiro.
Acho que o “Ser Criança” enquanto conceito, enquanto referencial, enquanto realidade sócio-cultural modificou-se, de forma assustadora mas, principalmente, de modo demasiado rápido.
Esta fase do desenvolvimento alterou-se no conteúdo e no continente, na forma e na essência!
Já não existe a criancinha frágil, terna e meiga!
Já não existe a criancinha de olhar límpido e de expressão inocente e pueril!
Já não existe a criancinha da gargalhada fácil, gaiata, quase cantarolada!
A criancinha doce e cândida implodiu tendo ficado, irremediavelmente, retida às portas da Modernidade.
Desapareceu a menina loira, de cabelos aos cachos, vestido de chita e fita de veludo na cabeça que chilreava, brincava às bonecas e era, desde o nascimento, casadoira, pronta a transformar-se em fada do lar... a evolução esperada de crisálida até borboleta.
Desapareceu o menino de calções e camisa às riscas, com meias pelos joelhos que, inocentemente, se deixava envolver em extenuantes lutas de reis ou intermináveis perseguições a ladrões, desde o nascimento vocacionado para se transformar num marido sério e trabalhador, profissional competente, pai sisudo e distante, como obrigava a norma, apenas terno em dias de festa... a evolução esperada de crisálida até borboleta.
Estes estereótipos desapareceram.
Foram alterados, tentando imitar novos ícones.
Modernizaram-se.
Cruelizaram-se!
Monstruosaram-se!
Foram substituídos por seres perversos que, em tribo, aterrorizam e torturam os mais fracos, revelando, expondo e arrastando pela lama, de forma cruel, as diversas fraquezas das vítimas, habitual e comodamente recrutadas “inter pares” ou, quando não, sequestradas a faixas limítrofes, quase marginais da sociedade, já por si ostracizadas. Agem sempre em horda, porque a turba protege, garante o anonimato, transmuta as próprias fraquezas em forças, gera adrenalina, fornece a suposta coragem e raiva da massa humana, anónima, da multidão que age em uníssono, sem pensar, de forma animalesca, quase urrando!
Assemelha-se ao regresso antropológico à alcateia...
Este desnudar público, violento, perverso, no recreio, no intervalo das aulas, serve de tirocínio, numa fase do desenvolvimento em que nada está nem parece perfeito mas em que a sociedade já exige que tudo e todos sejam e estejam obrigatoriamente perfeitos, cumprindo os cânones há muito estabelecidos.
Como serão estas crianças quando, já adultas, se virem confrontadas com a realidade gélida da selva a que chamo mundo real e a que os mais optimistas chamam “aldeia global”? E, neste momento, penso nos agressores e nos agredidos...
Apesar de tudo, e não esquecendo as idiossincrasias, a modernidade a isto chama Bullying...
Eu chamo crueldade!
Manuel Damas in "O Primeiro de Janeiro" a 4/11/2007

29 comentários:

aitb disse...

Crueldade de facto... mas não terá sempre existido ao longo dos tempos? mesmo entre grupos etários aparentemente "inesperados"? (crianças.. e até idosos)

è um pouco dificil pa mim conceber os modelos/esteriótipos de criancinhas q descreveste..q cresciam pa se tornar fadas do lar ou homens sérios e responsáveis.. imagino q um dia tenha prevalecido essa imagem.. mas.. acho que a crueldade (e o seu oposto) sempre existiram... só q agora ganham outra visibilidade.. e revestem-se de outros contornos, novas estratégias.. enfim.. tempos modernos..

è de facto chocante.. mas continuo a ter esperança nas crianças e nos mais jovens.. ainda há crianças com sorrisos ternos.. pq ainda há familias q sabem dar amor bom.. e sempre haverá um espectro enorme de crueldades.. pq tb há familias desfuncionais... e uma sociedade negligente e distraida q insiste em apenas ficar chocada.. em vez de reflectir e intervir positivamente nestes casos...

Mas não é o q acontece aki no teu cantinho!!!.... gostei do apontamento, gostei da "não indiferença". Obrigada por trazeres este tema a reflexão.

au revoir :)

Sunshine disse...

O seu artigo sobre "Violência juvenil" tocou-me pela sua falta de indiferença em relação ao que se passa à nossa volta.
Estamos a cair numa sociedade que se escandaliza momentaneamente com tudo o que aparece nos noticiários, mas depois esquece e continua a sua vida rotineira como se nada tivesse acontecido.
Passa-se isso com a violência juvenil, com a prostituição, com o número chocante de gravidezes na adolescência,com a pobreza, com a facilidade com que os divórcios acontecem e por aí fora...
Mas eu sou professora ( actualmente do terceiro ciclo) e tenho a sorte de todos os dias, nas minhas salas de aula, me deparar maioritariamente com adolescentes que são apenas adolescentes como eu fui um dia... Espero que a indiferença e o modo impessoal que as relações inter-peesoais assumiram, não venham a dominar este mundo que parece que perdeu o Norte!

Manuel Damas disse...

Obrigado pelas tuas palavras.
Logicamente que o modelo cruel que apresentei não é a regra, felizmente. Mas assusta-me enquanto modelo...
Volta sempre.
Um beijo

Manuel Damas disse...

A intenção é levantar questões, por vezes tendo que pintar o quadro a cores mais carregadas mas, genericamente, induzir à reflexão de forma, muitas vezes, polémica.
De qualquer modo, obrigado pela visita, pelas palavras e volte sempre.

aitb disse...

esperemos q não se torne um modelo então... ;)

beijos

FM disse...

Olá Professor! Espero que esteja a ter um Bom Domingo. Já lá vamos...(risos)
Li pela primeira vez em papel (durante o meu almço) o texto que "ontem" evitei ler por aqui...perto das 5 da manhã...
Numa primira impressão, digo-lhe que fica bem melhor no papel... apesar de ter gostado mais da fotografia qui apresentada. Parece ter outro peso...
Uma vez mais Parabéns por agitar consciências e não ser mais um a "tapar os olhos". Gostei, bastante como sempre... Só acho que esse livro está a demorar muito a sair... Promete ser um "must" em termos sociais e há gente que precisa lê-lo e relê-lo...

Manuel Damas disse...

Esperemos que não...
Um bom domingo "aitb"...
:)

Manuel Damas disse...

Diz a minha editora, Francisco, que será para a Primavera...

FM disse...

Espero poder ser convidado a elaborar uma estratégia de marketing paralela... (é uma oferta!) Tenho usn amigos e tal que podem ajudar nestas coisas e uns outros que também não se importarão... além de mim, claro, que tenho sempre ideias originais para fazer com que algo vá de encontro aos olhos dos outros... menos desatentos... Fiz-me entender?!

Manuel Damas disse...

Está, desde já, aceite. O que vem de amigos, vem por bem!

FM disse...

Cuidado Professor, é que eu quando me empenho em causas sou de... passar das marcas... Sou minucioso e não me satisfaço com pouco... Se quiser ter uma promoção de "croquete e amigos" numa qualquer livraria, não conte comigo... sou de algo muito mais arrojado e trabalhado...Estou a avisar.
(não sabe mas trabalhei em Marketing publicitário durante 3 anos)

Patrícia disse...

Professor, mais uma crónica com um imenso peso social. muito bem elaborada. Mais uma vez de parabéns.
Livrooo???
Espero que depois tenha a decência de me oferecer um e autografado!!!

Manuel Damas disse...

Francisco...Estamos nessa.
EU percebi toda a construção do projecto "Íris"...não ando a ver navios...
:))))))))))))))))))

FM disse...

Ok. Espero que os tenha no sítio... Não brinco em serviço. Conte comigo.

Mize disse...

Estarei cá, se Deus quiser, para ver...ehhehhhehhh

FM disse...

Mizé, respondo-te mais daqui a pouco... não posso interromper a Deusa... (risos)
Olhe Professor que a Mizé imagina do que eu sou capaz... e o Professor ainda vai a tempo de não ter um fiel e persistente Publicitário à roer-lhe as canelas... (envoltas em meias cor-de-rosa)
Estou a brincar consigo... Vou ter prazer em ser útil.

Manuel Damas disse...

Francisco...caso ainda não se tenha apercebido, mas eu acho que o meu querido amigo já se apercebeu, também não brinco em serviço!
Quanto ao resto...creia que os tenho bem no sítio...caso não...não teria feito metade do que até hoje já fiz...e estou a falar em todos os campos!
:)
Vamos a isso!

FM disse...

Ok... já comecei a delinear estratégias.

Manuel Damas disse...

Vai ter que fazer bem melhor do que isso...
:))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))

joana disse...

Professor mais uma excelente cronica,Parabens.
Penso que crueldade sempre existiu,infelizmente,mas ainda existem muitas crianças que sao uns amores,quero acreditar que são casos,singulares.


Francisco parabens,o vice versa´,é 5 estrelas,ontem estive la,e não podia deixar de dizer que o ambiente é muito bom,o Francisco é divertidissimo,e será um sitio a visitar mais vezes

Manuel Damas disse...

Joana, obrigado pelo comentário. Relativamente ao Vice-Versa vamos lá sempre à sexta feira após o SAM.Apareça um dia destes...

FM disse...

Obrigado Joana! Espero que se tenha divertido... efectivamente. Confesso que até nem estav nos meus dias... foram 4 noites seguidas com casa cheia... E é difícil para quem também trabalha, que não apenas à noite.
Obrigado... para próxima Identifique-se.
(já agora passe no essências, sempre é mais engraçado do que aqui o "rústico")

FM disse...

Muito gostei, Professor, de ler esta sua frase... Muito Obrigado pela preferência, mais ainda de alguém tão especial e distinto. Espero poder continuar com as suas importantes visitas. Origado.

Manuel Damas disse...

Oh Francisco...
Qual é essa de me vir aqui "roubar" os convidados????
E, ainda por cima, ter o desplante de aqui responder. E também chamar "rústico" ao meu castelinho?!
Bem...
Bem...
"Importante"..."Distino"...isto tem "água no bico"...ai tem, tem...
:)))))))))))))))))))))))))))))))
Vox Populli..."Quando a esmola é grande, o pobre desconfia!"

FM disse...

Não dou esmolas... em situações destas.
Quanto à "conquista de visitas para o Bloguinho", logicamente que não faço nada que o Professor não tenha feito... (risos)
Estou sempre a aprender com o "Mestre Manelinho"... que me trouxe para estas coisas esquisitas dos Blogues...
Um dia destes ainda o processo por isso... e lá se irá a colecção de camisas cor-de-rosa... (risos)

Manuel Damas disse...

Por acaso hoje estou de camisa preta!
De qualquer modo, um dia destes, apareço naquele brilhante programa de televisão que eu e a Jesus...Maria José temos, com uma camisa cor de rosa!
Deixe chegarem os outros fatos!!!
:P
Eu não tenho esse tipo de fantasmas!!!
:)))))))))))))))))))))

joana disse...

Professor,irei aparecer,no vice versa,com todo o gosto a uma sexta feira.

Francisco para a proxima identificar me ei,e quanto ao essencias vou começar a´passar´por la

Manuel Damas disse...

Joana, fica prometido.
Um beijo enorme.

FM disse...

Até Breve Joana! Fique BEM!