domingo, 22 de abril de 2007

O FASCINIO...



São olhares que se cruzam, perdidos na multidão e que, de repente, ficam presos...
É um sorriso que brilha, no meio da urbe, fazendo sonhar...
É um rosto que desponta da amálgama de tantos outros...
É uma voz que, do anonimato salta e marca...
É um toque que cola à pele, provocando sensações estranhas...
É uma maneira de ser e estar que inebria todos os segundos dos momentos em presença...
Enfim...
É a magia, o fascínio, o deslumbramento!
E assim, do nada, surge o Tudo!
Mas um tudo que, muito rapidamente, toma conta de tudo...
A banalidade jogada para um canto, já substituída pela luz...
O coração passa a querer explodir quando os olhares se cruzam.
A respiração acelera, sôfrega, parecendo querer impedir que se respire, por medo de estragar o momento.
O estômago vira desconforto, e o acto de comer, em conjunto é fascinante, a sós tarefa penosa.
As mãos tremem e agitam e suam e não param quietas, sufocadas no espaço que o ar lhes reservou.
O ar que se respira torna-se denso, insuficiente, nunca chegando para encher o peito.
O mesmo ar que se enche de doces violinos sempre que em presença e se transfigura em melodia soturna, de silêncio atroz, asfixiante, na ausência.
É o peso dos minutos que se transforma em horas pesadas, que rastejam a passar, na ausência.
É o mesmo tempo que foge, veloz, esvaindo-se entre os dedos, mesclado de suspiros, na presença.
São os sentimentos que se alteram, as sensações que se engrandecem, os sentidos que se tornam demasiado sensíveis, o discurso que encrava no céu da boca, pastoso, entalado pela língua agora pesada, o raciocínio que embota, incapaz de reflexão critica, de análise metódica...é o Fascínio.
Mas afinal o Fascínio causa todas estas alterações?
Claro que causa, mas é primordial que exista. Para que a relação possa crescer é necessário cumprir todas as etapas, sem cair na tentação cómoda de usar atalhos. Porque os atalhos, em relação, a maior parte das vezes tornam-se prejudiciais...
Este Deslumbramento que causa dor/prazer e se aproxima perigosamente de um estado de desorganização total da percepção é fundamental para o imprinting afectivo. Aqui a Razão perde espaço, sendo substituída pela Emoção. E é saudável que isso aconteça porque a racionalidade, em relação, se fica demasiado analítica, muitas vezes impede a saudável vontade de sonhar. A Magia, por si só, fornece grande parte dos estímulos que impelem ao futuro da relação, servindo, no futuro, de paliativo a muitos dos momentos relacionais complexos. O Fascínio faz explodir a vontade de querer saber, de conhecer, mais e cada vez mais. Mas não é saudável permanecer estático neste degrau por maior prazer/dor que isso provoque, ainda que de forma não assumida. Após ter exercido e gozado, de forma saudável, o direito ao fascínio, é imperioso progredir, conhecer, aprender a descobrir e deixar revelar, no sentido da evolução para uma verdadeira relação, disposta a ser apreendida, negociada, partilhada, vivenciada.
Assim ficarão guardados, no baú da memória, os doces e intensos momentos que o Fascínio permitiu que sucedessem, sempre prontos a ser repescados, num prazeroso recordar.
Manuel Damas, in "O Primeiro de Janeiro", a 22/4/2007

4 comentários:

Cristina disse...

"Assim ficarão guardados, no baú da memória, os doces e intensos momentos que o Fascínio permitiu que sucedessem, sempre prontos a ser repescados, num prazeroso recordar."

São, muitas vezes, esses doces e intensos momentos que nos dão o ânimo necessário para avançar ... é muito bom recordar.

Adorei! Já tinha lido e arrepiei!!!

Manuel Damas disse...

Ainda bem que gostou, Cristina.É também para os meus leitores que tento escrever o melhor que sei.

Mize disse...

Uma crónica fascinante.
Espero que um dia faça uma compilação e publique. Quero um livro seu com dedicatória, e que seja da primeira edição.

Bjs.

Manuel Damas disse...

Lá iremos, Maria José.