sábado, 19 de abril de 2008

PORTUGAL URGE!


Tencionava escrever sobre a grotesca decisão do Tribunal ao sentenciar um dos assassinos de Gisberta apenas a oito meses de prisão domiciliária e o seu significado.
Tencionava perguntar se oito meses representam, em Portugal, em 2008, o preço de uma vida humana, da vida de alguém que apenas quis ser feliz.
Tencionava tentar compreender como é possível que um grotesco processo de tortura a um ser humano, refém, sequestrado e vítima de sevícias repetidas no tempo, ao longo de vários dias, por um bando de assassinos, seja ilibado. Libertar doze dos assassinos, com o único argumento da falta de idade é, para mim, incompreensível. Deixá-los livres para praticar outras sevícias e sentenciando apenas um, à obscena decisão de prisão domiciliária, no recanto do lar, em tranquilidade e paz, durante oito meses é pornográfico. Proteger o assassino, com esta decisão, dos olhares e das críticas da população é um acto que preciso de compreender, para conseguir manter a minha sanidade mental e, acima de tudo, a confiança no sistema judicial português.
Todavia, a crise que rebentou no Partido Social Democrata, o maior partido da oposição, obrigou-me a rever as prioridades.
O PSD é um partido com vocação de poder, com história, com passado, com presente e, quero crer, com futuro.
O PSD faz parte do património histórico de Portugal.
Estou à vontade para o escrever porque já assumi, nos mais diversos contextos e em diferentes momentos, que sou militante do PSD há 25 anos, obviamente por opção e claramente por devoção.
Precisamente por isso, sinto-me no dever e na obrigação de, neste momento, dar o meu contributo aquele que o embaixador José Augusto Seabra uma vez chamou “uma manta de retalhos em termos ideológicos” e que eu defino como sendo o partido mais português de Portugal. Se o PS tem como matriz ideológica o Socialismo, o PCP o Comunismo e o CDS a Democracia Cristã, não se consegue arranjar facilmente uma base ideológica, uma doutrina política capaz de sustentar aquele que é, ainda, o maior partido da oposição.
Só assim se compreende a repetida oscilação ideológica do Partido Social Democrata, consoante cada liderança, ao sabor da estratégia delineada pela Direcção em exercício. Também por isso o PSD é, na minha perspectiva, a força política em Portugal mais dependente da sua liderança.
Só assim se compreende o estado actual do PSD e, acima de tudo, a etiologia da crise que se instalou.
Como é possível que uma liderança dure apenas seis meses?
Dir-me-ão que esta nunca foi uma verdadeira liderança porque bicéfala... porque desde cedo evidenciou falta de carisma, ausência de um projecto mobilizador, integrador, unificador e motivador, inexistência de uma ideia concertada para o partido e, acima de tudo, para o País...
E eu sou obrigado a concordar!
Conheço Luís Filipe Menezes há muitos anos e sempre o considerei um homem sem carisma. Um político de terceira ou quarta linha, detentor de uma desajustada vocação para a vitimização...Basta recordar aa vezes que se demitiu, antecipadamente, da Direcção da Distrital do Porto do PSD, quase sempre com a argumentação da ausência de condições para continuar e, simultaneamente, as vezes que, em consequência, se vitimizou e, após “doloroso processo de reflexão”, aceitou reconsiderar e candidatar-se, sempre com “enorme sacrifício pessoal”. Não será necessário recordar a dramática imagem de LFM , vaiado no Congresso Nacional do PSD de tão triste memória em que lançou o “Sulista, elitista e liberal”. Nem sequer será necessário rever a campanha que em consequência foi orquestrando, deixando cair nos jornais e revistas pormenores quase obscenos do seu “enorme sofrimento”, do “desgaste emocional” que foram os minutos seguintes à derrocada e da sua luta, nas instalações sanitárias, com a dor e o sofrimento, as “lágrimas a escorrer pelo rosto”, verdadeira literatura de cordel, autêntico argumento cinematográfico de terceira qualidade de um qualquer produtor independente.
Um líder não se cria com estas estratégias...
Este perfil seria, sempre, inadequado a uma liderança, ainda por cima na oposição e perigosamente bicéfala, por ter como “compagnon de route” o “monstro” da comunicação, o “príncipe” dos media que dá pelo nome de Pedro Santana Lopes.
Obviamente que Filipe Menezes seria totalmente pulverizado!
Mas, principalmente, por culpa própria.
Recordemos a quantidade de declarações sobre os mais diversos temas, quantas vezes de sentido contrário, produzidas com o intervalo de horas, no máximo de poucos dias, sobre os mais diversos assuntos, gerando uma imagem de total ausência de “fio condutor”...o percurso errático e a imagem subliminar de quem não sabe o que quer...hoje vermelho, logo azul, depois verde.
A dramática estratégia de, acima de tudo, aparecer, ser lido e falado, a qualquer custo, sem responsabilidade nem maturidade, de que são exemplo, entre muitos, as declarações sobre a publicidade na TV, o Sistema Nacional de Saúde, os Professores e, qual cereja em cima do bolo, o caso Câncio...
Esta postura, esta linha de comportamento acabou por destruir aos olhos da opinião pública a imagem, já por si desgastada, fragilizada, descredibilizada, que esta Direcção não conseguiu reverter, fazendo implodir este debilitado projecto de liderança.
Em questões de governação a população não aceita tibiezas, falta de credibilidade e de idoneidade.
Mas a história comprova que o PSD sempre foi capaz de renascer das cinzas, após todos os dolorosos processos de crise de que foi vítima.
Urge pois, que de forma rápida mas transparente, todos aqueles que representam ou consubstanciam alternativas se apresentem, com sentido de responsabilidade.
Mas não me parece credível que, uma vez mais, LFM se deixe envolver por uma qualquer onda de fundo, redentora, que o tente levar a reconsiderar a demissão. LFM é uma personagem de mediana estatura política, sem capacidades messiânicas, ainda que um excelente Presidente de Câmara...de Gaia, e para aí deve regressar...com calma e tranquilidade, sem rancores. Mais um golpe de teatro, uma outra manobra de bastidores, tão ao gosto do estilo dramático-espalhafatoso de LFM poderia ter consequências dramáticas para o partido e, acima de tudo, para o País. Urge que, rapidamente, se perfilem todas as alternativas, porque Portugal espera mas não quer desesperar. É o momento de todas as opções serem equacionadas.
O País exige, do PSD, uma alternativa sólida, madura, consciente e consistente, corajosa e empreendedora, transparente e séria, assumida, credível, sem messianismos.
A essa solução Portugal aderirá, sentindo que, finalmente, a esperança renasceu.
A oportunidade não poderá ser desperdiçada...uma vez mais!
Porque Portugal urge!
Manuel Damas in "O Primeiro de Janeiro" a 20/4/2008

4 comentários:

Paulo V. Pereira disse...

Boa tarde, Sr. Professor.
Desde muito cedo sou do PSD mas, actualmente, sinto um certo desacreditar que se perpetua a toda a política.

A justiça no nosso país... Talvez por se tratar de um transexual. Quanto preconceito, quanta mesquinhez... Quando me confronto, nas aulas de CN, com os preconceitos criados, em crianças de apenas 11-13 anos...

1 abraço,
Paulo

http://paulovasco.multiply.com

Manuel Damas disse...

Oh Paulo...mas é precisamente nessas crianças que se deve fazer o trabalho da desconstrucção dos estereótipos que, por mais irónico que possa parecer já estão demasiado instalados.
Como o compreendo.
Um grande abraço e volte sempre.

Zé do Cão disse...

Cá estou Sr. Prof. a dar-lhe o meu incondicional apoio sobre a justiça.
Avergonha da justiça não é só no caso "Gilberta/o" são em todos os outros casos com sentenças aberrantes.
A criminalidade aumentar todos os dias, assassinatos a todas as horas, mas para os governantes e policias a percentagem caiu. Decisões ridiculas.
Sobre o PSD, que nodoas se agarraram a essa bandeira, sem estar descoberto detergente à vista
para a lavar.
Um abraço

Manuel Damas disse...

Um grande abraço, Zé.
Obrigado pela mensagem que me enviou acerca do jantar.
Este foi o primeiro.
Não esteve neste...estará num próximo.
Um abraço