domingo, 24 de fevereiro de 2008

POR GISBERTA, UMA VEZ MAIS!


Porque tenho memória e não tenho o direito de deixar passar em branco uma data que não pode ser esquecida, esta crónica é dedicada ao assassinato de Gisberta, passados dois anos.
Pensarão alguns... “Lá vem este defender o travesti, de novo!”
Não!
Venho defender o direito à indiferença, muito mais do que o direito à diferença.
“Não me parece uma crónica adequada à pacatez dominical!”, sibilinamente argumentarão outros.
Pois...É precisamente contra esta paz podre que eu escrevo, para que o direito à tranquilidade não seja, apenas, propriedade de alguns, mas direito e dever de todos.
“Estava tudo a correr tão bem. As três crónicas anteriores até foram decentes e sobre política...”alegarão ainda outros, ciosos da defesa do bem estar das famílias.
Mas esta será, também, uma crónica decente, pelo direito à existência, pelo direito à vida, pelo direito à sobrevivência, pelo direito à dignidade.
Eu tenho direito à indignação!
Eu tenho direito a querer e a ter memória!
Sempre que relembro este assassínio não consigo deixar de pensar na angústia, na terrível e atroz angústia que Gisberta terá sentido.
Doente, frágil, sentindo-se no fim de uma existência que perdeu a dignidade, sentindo-se no fim de um percurso que perdeu a beleza, a luz, o brilho, a cor, para se tornar um eterno e infindável cinzento, escuro, muito escuro, demasiado escuro...
E, no fim de tudo isto, em vez da glória glamurosa a que estamos habituados a assistir em filmes de família, surge uma glória sem lantejoulas, sem sorrisos, sem música na saída de cena, sofrida, sem esperança, asquerosa...
Foi esta anti-glória que atingiu Gisberta, na forma de uma tortura animalesca.
Imagino Gisberta, na escuridão, como um animal acossado, dorida, magoada, sofrida, dobrada sobre si mesma, como que querendo regressar à origem, ao ventre materno, para enfim se sentir protegida, para enfim ter um lar, para enfim ter paz!
Imagino Gisberta, uma massa disforme, da pancada, da tortura, transformada numa dor única, imensa, que quase já não dói por ser tão intensa e total, dor que faz companhia e que significa, por ser sentida ainda, o acto de estar viva, porque, lá no fundo, bem lá no fundo, ainda se consegue sentir, no meio de todo um enorme sofrimento, algo a que se consiga chamar apenas dor!
Imagino os gritos de dor lançados por Gisberta, primeiro de indignação e revolta por estar presa e a ser torturada, depois de dor apenas, lancinantes, em uivo, lançado, gritado, sofrido, cuspido para o ar!
Imagino os uivos de Gisberta depois transformados em gemidos de uma dor sentida, entranhada, que atinge por ondas que avançam por todo o corpo e em que tudo dói em conjunto!
Imagino os gemidos de Gisberta depois transformados em murmúrio, soprado, triste, sozinho, ainda sofrido mas, acima de tudo, desistido!
Imagino, por fim, os murmúrios de Gisberta depois transformados em balido, único, contínuo, já não humano, já não identificado, apenas balido, de animal ferido de morte, que apenas pede o direito a desistir, a parar de sofrer, a morrer para ter paz!
Imagino Gisberta, que nunca conheci, babando-se de dor, cuspindo sangue, rasgada, esventrada, esborrachada, perdida, sentindo as dores de uma dor que alastrou ao corpo todo porque nada mais haveria a doer que já não doesse e a tentar esquecer essa mesma dor!
Imagino Gisberta, farrapo velho atirado para um canto de uma escuridão húmida, usando ainda um baton pobre, da cor descolorida da ilusão perdida, já babado dos lábios para o queixo e daí para o peito, cor rubra misturada com saliva e sangue, arrancado de uma boca que outrora soube rir, seduzir, beijar e amar!
Imagino Gisberta, ainda em alerta animal, sempre à espera de um ruído atroz e fatal que lhe recordasse a sua condição de animal enjaulado, palhaço estragado suspenso numa vitrina, ao sabor desvairado de crianças-homens-algozes-assassinos, desprovidos de humanidade, possuídos por uma louca, insaciável e interminável vontade de fazer mal, ferir, violar, violentar!
Imagino Gisberta, com a cara disforme, a mesma que, outrora, exibira nos palcos de uma vida não sonhada, nem desejada, à procura de uma felicidade, de uma dignidade e de uma paz nunca alcançadas, agora massa inchada, ensanguentada, à espera de mais um momento de espectáculo, de circo, já sem música a não ser o gargalhar violento dos esgares dos assassinos que, por prazer, voltam sempre, à procura de mais um momento de diversão-sofrimento!
Imagino Gisberta, por fim atirada para um qualquer fosso, sentindo-se cair, depois molhada e invadida por uma água escura, suja, fétida, putrefacta, mas libertadora porque com ela vem, primeiro, a humidade que anestesia e, depois, a falta de ar que asfixia mas que, por fim, é sinónimo de libertação. A liberdade total e última, que então chega, a paz finalmente alcançada, de uma morte não desejada mas provocada às mãos de quem ainda alguns conseguem considerar, como que numa cantiga de escárnio e maldizer...
“Meninos perdidos, coitados...”
Manuel Damas in "O Primeiro de Janeiro" a 24-2-2008

20 comentários:

Statler disse...

Imagino Gisberta...

FM disse...

Bom texto, uma vez mais... Parabéns!

diabitah disse...

Muitos diriam "É importante lutar pela inclusão social"...eu diria mais...é urgente lutar pela INTEGRAÇÃO SOCIAL...não basta aceitar as diferenças...é necessário construir uma sociedade que além de as aceitar tenha respostas para as intregrar...todos têm direito a participar socialmente.

Direito? alguns diriam "Mas se falamos direito também tenho o direito de não querer aceitar o outro"...sim...poderão até ter a sua razão...no entanto...têm o dever de respeitar a diferença...

Infelizmente...todos sabem os seus direitos...mas quando perguntamos os deveres...puft...encontramos um vazio assustador e inquietante. Mas continuando a falar de direitos...uma vez que a sociedade fica mais atenta a falar de direitos doque de deveres...vejamos alguns exemplos...

Se analisarmos os Direitos, Liberdades e Garantias pessoais...
No artigo 25º Ninguém pode ser submetido a tortura, nem a tratos ou penas cruéis, degradantes ou desumanos.

No artigo 26º A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra quaisquer formas de discriminação

São só alguns exemplos...mas e agora pergunto-me a Gisberta não era um Ser Humano?Huummm...então e porque lhe negaram estes direitos? Não conhecia a Gisberta...mas não deixa de ser inquietante por saber que existem imensas Gisbertas por aí...que vêem constantemente negados os seus direitos...que se obrigam a utilizar mascaras para não serem descriminalizadas...

E então?Será que não vale a pena aceitar e integrar a diferença?é com as diferenças dos outros que aprendemos e nos construimos também...

macaw disse...

"Venho defender o direito à indiferença..."?! parece que está a dizer precisamente o contrário daquilo que quer dizer que será melhor expressado na frase "venho lutar contra a indiferença/ esquecimento..." peço desculpa se estou errada! E não me leve a mal. Fiquei confusa ao ler esta frase, mas percebi o que quis dizer com o qual CONCORDO PLENAMENTE!!! Gostei desta sua insistência num assunto controverso, para que se lute contra o preconceito que afecta tanto a mentalidade portuguesa! E, tem mesmo de ser assim, lutar até que as pessoas aprendam a respeitar ainda que não aceitem essa diferença! Como se costuma dizer, quem não gosta não estraga! :)
Adorei, adorei!

bjinhos ;)
bom fim de semana!

Manuel Damas disse...

A intenção era essa mesma, Statler.
Conseguir que por momentos as pessoas conseguissem imaginar Gisberta. Se consegui, os meus objectivos foram alcançados.
Obrigado, Statler.

Manuel Damas disse...

Obrigado, Francisco.
Um abraço.

Manuel Damas disse...

Concordo consigo em pleno Diabitah.São os diferentes graus de intensidade das palavras "Inclusão" e "Integração"! Um beijinho grande

Manuel Damas disse...

Oh "mac" não precisa de pedir desculpa cada vez que discorda de mim.
Não sou assim tão intransigente.
Quando eu falo no direito `indiferença já não é o facto de ter direito a ser diferente. Vai muito mais longe. É o direito a que as pessoas reajam com indiferença à diferença, que é o que nós observamos noutros países civilizados.
Eu lembro-me quando fui fazer investigação para a Universidade de Georgetown, em Washington, nos EUA, de nos primeiros tempos ficar completamente fascinado pela indiferença saudável com que os americanos passavam ao lado da diferença.
É precisamente por aí que eu vou!
Um beijinho grande e não precisa de continuar a pedir desculpas por discordar. O direito à diferença de opiniões é saudável e produtivo.

macaw disse...

sim, mas uma vez que não nos conhecemos, não quero que me interprete mal e se sinta ofendido. também não o quero fazer passar por intransigente. mas lá está, quando falamos com as pessoas pela net, principalmente com pessoas que não conhecemos o risco de sermos mal interpretados é sempre muito grande!

quanto ao post, percebi a ideia, só estava a analisar mesmo a forma como a exprimiu. :)

bjinhos ;)

Manuel Damas disse...

Beijito grande e toca a ir participar no desafio novo lá mais para cima!
:)))))))))))))))))))))))))))))))))))

anarquista_duvall disse...

não foi esquecida...mas nem sempre temos tempo para tudo e neste fds foi mais importante ajudar presencialmente a que a homenagem acontecesse - na blogoesfera fica hoje a homenagem...passe por lá

abraço e obrigado pela atenção

Manuel Damas disse...

Um abraço.
Lá irei!

SILÊNCIO CULPADO disse...

Várias vezes tenho abordado "Gisberta" um caso que não deve morrer e deverá existir como símbolo duma evolução que tarda nestas sociedades ditas desenvolvidas.

Manuel Damas disse...

Um beijinho, "silêncio"...

Zé do Cão disse...

Apetecia ficar pelo "silencio"m mas é impossivel ficar insencivel a este escrito do Dr. Damas.

É pena, muita pena mesmo, que mesmo depois desta leitura, tanta gente fique indiferente a ocorrencia tão bárbara.

Pensar que foi praticado por miudos, miudos em quem tantas esperaças depositamos.

Bem haja pelo seu interesse.

Manuel Damas disse...

Obrigado Zé...
Um grande abraço!

parvinha disse...

Atrasada cá estou.
Este fim de semana num jornal on-line, estava uma rapariguita a comentar, mas tanto alarido, porquê?, por ser um travesti?

Levou com o chãzito das cinco, não minha querida, porque mais uma vez, não se faz justiça em Portugal, porque a justiça não está do lado dos mais fracos, chãzito bem dado, digamos!

Beijinho

Manuel Damas disse...

E fez muito bem!
Beijito

joana disse...

Um caso macabro,professor.Nenhum ser humano no mundo devia ter um fim assim,tão horrendo.
Professor,todos os dias me cruzo com uma das pessoas que participou neste crime,mora a minha beira,está na casa dos pais,sai a rua quando quer,vive a vida,faz o que quer,e a justiça nada faz,para que ele pague,por o crime que ajudou a cometer,hoje em dia acho até que a nossa justiça,está do lado de quem faz as maldades,não compreendo,nem consigo compreender.
Acho muito injusto morrer assim de uma maneira tão macabra,e eu que me cruzo com um dos assassinos todos os dias,penso,um dia tiraste a vida a alguem mas continuas com a tua vida.Onde é que nos iremos parar com um país assim com tanta falta de justiça,professor?E ainda somos condenados por fazer justiça com as proprias mãos,a nossa justiça não resolve, alguem tem de demonstrar que temos de pagar pelos nossos erros.

Manuel Damas disse...

É a Justiça cada vez mais injusta que temos em Portugal, Joana!