domingo, 28 de outubro de 2007

"A OUTRA MARGEM"



Fui ver um filme português.
Sim.
Português, uma vez mais.
Sala com a lotação a cerca de 30%, facto que me deixou, logo à entrada, preocupado...
O tema, qualquer coisa entre um travesti e um mongoloide, ainda mais me preocupou porque, sinceramente, farto de "estopadas" portuguesas, pseudo-intelectualoides estou eu...
Não tenho já pachorra para aturar este tipo de maçadas!
Como tinha sido sugestão carinhosa, acabei por concordar, ficando à espera, bem receoso...
Tinha duas opções...
Ou ir-me-ia confrontar com um qualquer momento lentificado de forma atroz em que a vida parece parar e durante horas se assiste à contemplação de uma mosca que lenta e morbidamente mexe uma pata e tudo o que à volta disso se desenrola... tipo Manuel de Oliveira e família;
Ou ia assistir a qualquer coisa com muito vernáculo, muita nudez e uma suposta brutalidade que o cinema português quer fingir que descobriu...
O facto dos dois principais intérpretes, Filipe Duarte e Tomás Almeida terem recebido, ex-aequo, o prémio para melhor actor no Festival de Cinema do Mundo de Montreal, no Canadá, sinceramente, não me serviu de grande conforto.
Estava muito céptico...
Todavia, sem razão.
Estreou a 25 de Outubro, a 10ª longa metragem de Luís Filipe Rocha, intitulada "A outra margem" e que, na minha opinião é um dos mais belos filmes que algum dia tive a sorte de ver e, seguramente, o mais belo filme português de sempre.
O enredo joga-se entra as duas personagens nucleares do filme, Filipe Duarte que interpreta a personagem Ricardo um travesti que se encontra a tentar fazer o luto e simultaneamente a tentar renascer da morte por suicídio do namorado e da sua própria tentativa de suicídio e Tomás Almeida que interpreta a personagem Vasco, um trissómico 21 que vive em Amarante mas cuja grande paixão profissional é o teatro.
Mas muitas outras envolvências condicionam e enriquecem a história do filme...
A mulher que, em Amarante, decide assumir uma gravidez sozinha...A mesma mulher que, posteriormente, é confrontada com o mongoloidismo do filho e a quem deseja a morte no momento do nascimento.
A mesma mulher que acaba por dedicar toda a vida a este filho mas que, dona de um amor adulto, é capaz de se flagelar quando deixa o filho partir para Lisboa para seguir o seu sonho e , assim, desfaz toda a sua vida...
A mulher que é abandonada no altar pelo "travesti" e que passa uma vida agarrada a essa mesma recordação, não conseguindo aceitar a orientação sexual do ex-noivo.
O pai do gay que, amando-o, ao ponto de renovar o seu velho cavalhinho de madeira de baloiço, não consegue receber o filho, dada a sua assumida orientação sexual.
E muito, muito mais!
Resumidamente este filme integra-se, em pleno, no título deste blogue porque aborda, com extraordinária beleza as Sexualidades, os Afectos e as Máscaras:
Saí da sala, de lágrimas nos olhos e a repetir, com enorme prazer e sentido de justiça a frase de Vasco...
"Nito!"

6 comentários:

FM disse...

Afinal, o Professor também deixa cair a lágrimasita... Fica-lhe bem assumir.

Manuel Damas disse...

EU?!!!!!
Eu sempre assumi!
Emociono-me com muita facilidade!
Fico com os olhos cheios de lágrimas com muita coisa.
Choro, muito e sempre!
Aliás, estou a ficar, ultimamente, um chorão...

joana disse...

Fiquei bastante curiosa,um filme a ver sem duvida.

Manuel Damas disse...

Recomendo vivamente, joana.

Mize disse...

Não sou consumidora de «portugueses» , mas a excepção confirma a regra. Irei ver.

Manuel Damas disse...

Vá, Jesus...Maria José!Eu tambémnão sou consumidor habitual de filmnes portugueses. Já está para destaque!
:))))))))