domingo, 16 de março de 2008

PORTUGAL FASHION


Meninas e Meninos!
Senhoras e Senhores!
Gente conhecida, menos conhecida, desconhecida!
Entrem!
Entrem todos!
O Circo vai começar!
É Portugal a tentar ser fashion.
Pode ser analfabeto.
Pode ser pobre.
Pode ser doente.
Isso não interessa.
Hoje, não interessa!
Porque o Circo vai começar!
É Portugal no seu melhor...
Poderia ser assim anunciado o evento.
Porque de uma feira se trata, na realidade, de um qualquer circo, supostamente verdadeiro, agora que até a tenda já está montada.
Portugal, no seu melhor, assiste, saloio, deslumbrado, invejoso, à feira das vaidades...obviamente que a uma feira, à nossa dimensão, adequada à nossa portugalidade, principalmente ao ser e estar português que hoje vive, frugalmente, porque sem verba e de aparências. Vive e tenta sobreviver de um suposto glamour que não brilha porque baço, já gasto...deprimentemente gasto. Mas essa idiossincrasia é fruto da nossa realidade e da nossa carga genética.
Porque somos do Fado!
Porque somos o Fado!
Porque nos achamos cobertos de negro, de xaile trajados mas, acima de tudo, cobertos de negro, de um negro que nos vem de dentro.
Temos medo de sorrir.
Temos medo de viver.
Temos medo de ser, receosos de ter que se cumprir Portugal.
Mas Portugal vai ter que se cumprir, um qualquer dia que seja, se mais não for, por uma questão de justiça...por uma questão de dignidade.
Mas regressemos à feira das vaidades, das nossas vaidades, no nosso Portugal de 2008 que já nem se esforça por fingir ser fashion.
E aqui tudo desfila!
Actores e público... tudo gente de Máscaras.
Tudo gente com Máscaras!
Máscaras com rostos, mas sem nome, porque aqui os nomes não interessam e as Máscaras, desfilam. Os nomes, esses, existem e estão lá, mas invisíveis, porque não interessa que se tornem visíveis. A visibilidade dos nomes traria atrás de si as respectivas realidades e essas incomodam porque são reais, sem disfarces e ardem e doem e, nesta feira das vaidades, a realidade, a verdadeira, a palpável, a intransponível, não existe ou, pelo menos, não interessa que exista.
Máscaras com corpo...cabeça, tronco e membros.
Todos diferentes, todos iguais.
Impávidos, mas não serenos, porque por detrás da Máscara existe a realidade, de cada um, quantas vezes sofrida, viciada, ainda sobrevivente. Até quando?...essa é uma questão de somenos importância, pelo menos para quem desfila, quando desfila. Porque aí, o que interessa, verdadeiramente, é a Máscara...mas até quando?
Até quando conseguir ser.
Até quando puder ser.
Até quando aguentar ser, obviamente.
Todos diferentes, todos iguais...os rostos.
Todos diferentes, todos iguais...os corpos.
Belos, perfeitos, mas sem cor, sem ânimo, sem graça, sem vida...os que desfilam.
Porque essa, a vida, aqui...não existe.
Todos diferentes, todos iguais...os rostos.
Todos diferentes, todos iguais...os corpos.
Feios, imperfeitos, mas sem cor, sem ânimo, sem graça, sem vida...os que assistem.
Todos diferentes, todos iguais...os trajectos de vida.
Muitas vezes sofrida, ávida de alegria, enojada de esgares que se compram e se vendem, sempre iguais...e vazios.
Esgares de plástico que se exibem, nesta feira de vaidades prostituída.
Máscaras de realidades desconexas!
Homens, mulheres, rostos, máscaras...
Indecisos, imprecisos, não concisos!
Nesta feira das vaidades eles e elas desfilam, estetas, profetas de plástico, arautos do nada.
Porque nesta feira das vaidades o nada existe... oco, vazio, asfixiante, enorme!
Máscaras anónimas, impávidas mas não serenas.
Portugal no seu melhor...a fingir.
A fingir que existe, o que é triste!
Manuel Damas in "O Primeiro de Janeiro" a 16-3-2008

12 comentários:

Blue Velvet disse...

UAU!!!
Caríssimo, belo texto.
E tudo, tudo tão verdade.
Só máscaras.
Tudo vazio.
Por textos como este, e outras cositas más é que tem lá no Bluevelvet umas coisas para ir buscar.
E escusa de invocar a moderação, porque assim está e assim vai continuar. :)
Em nome da liberdade individual, se é que me entende.
Lá o espero.
Bom Domingo.
Beijinhos, veludinhos e muitos cetins.
Aliás, hoje tem direito a passadeira vermelha...

Mize disse...

Já o disse, mas tenho necessidade de o repetir: dos melhores textos que escreveu, na minha modesta mas honesta opinião.

beijinhos

Manuel Damas disse...

Ok...
Obrigado!
Já lá irei, "bluesinha"...
Mas a esta hora nem sei...
Estará a fazer a sua sestinha?
:)))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))

Manuel Damas disse...

Zeuzinha, meu anjinho...
Bigados...
Bigados, muntos...
:)))))))))))))))

macaw disse...

Boas! :D

Quando voltar da Blue, pode ir directo ao meu planeta! Ah, pois, não há escapatória! Estão à sua espera! Os prémios, claro!

bjiiinhos ;)

Manuel Damas disse...

Uops...
Assim seja!
Lá irei, "jazinho"..."mac"!
:)))))))))))))))

Sunshine disse...

Gostei muito do texto, mesmo muito. Fez-me lembrar que Portugal se calhar sempre foi assim, é assim que o descreve Eça de Queirós nos Maias...
Beijinhos

Manuel Damas disse...

Um beijinho grande, CC.

Mary disse...

Concordo com as palavras!
Está na altura de deixar cair as máscaras e olhar...olhar à nossa volta para ver a realidade!!
Fingir que não se vê já não pode ser opção...
Disfarçar este País com uma capa "Fashion" só nos torna mais cegos!!
Belo texto...Parabéns
beijinhos

Manuel Damas disse...

Obrigado, Mary.
Seja bem vinda e volte sempre.
Beijinhos

liamaral disse...

Sem dúvida Professor!! Também lá estive, (e vi-o!!)e fiquei com essa ideia!!
Beijinho

Manuel Damas disse...

Oh lia...se a menina esteve lá e viu-me porque não veio ter comigo pelo menos para trocarmos um beijinho?
Hum???
:P