domingo, 27 de janeiro de 2008

LA SAPIENZA E O PAPA...


Já aqui escrevi uma crónica exclusivamente sobre o Papa Bento XVI.
Também já aqui proferi opiniões, indirectamente relacionadas com Ratzinger.
Precisamente por isso não equacionava, nos próximos tempos, tornar a dedicar uma crónica ao Papa actual todavia, nós somos e estamos reféns dos acontecimentos e, não sendo protagonistas, podemos e devemos emitir opiniões sobre os acontecimentos...a isto chama-se, Direito de Opinião.
Quem me lê estará a pensar...”Para estar com toda esta introdução, não vai ser meigo!”
Nem vou ser...
Nem vou deixar de o ser.
Vou, apenas, opinar.
Bento XVI foi convidado a presidir à abertura do ano lectivo na Universidade La Sapienza, em Roma.
Para quem não saiba, La Sapienza é, talvez, a maior Universidade da Europa e, sem dúvidas, uma das mais credenciadas.
Por outro lado o meio científico foi, é e deverá continuar a ser, espero, um meio de ideias, de pensamento, de liberdade, de investigação, de reflexão, de incómodo perante o estaticismo, de rebeldia e de rebelião, borbulhante de ideias e de ideais, de interrogação permanente e contínua, na tentativa quiçá insana de conseguir atingir o Alfa e em simultâneo o Ómega ou seja, na tentativa permanente de tentar chegar à Verdade!
Não é por acaso ou por coincidência que, em regimes políticos contestáveis e contestados, um dos focos de resistência é, por princípio e por definição, a Universidade, no sentido lato, o meio académico, em termos gerais. Até porque, na Universidade, encarada como um todo, junta-se o acto de querer saber, por parte dos cientistas e investigadores que lá trabalham, à força da irreverência, da inovação e da seiva por parte de quem lá estuda enfim, por parte de quem lá tenta aprender. Assim sendo, é um nicho de aprendizagem, de informação e de formação mas e também, talvez pela sua essência e pela sua génese, um foco de inconformismo e de manifestação versus irrequieta contestação.
E ainda bem que assim é!
La Sapienza não foge à regra, felizmente.
Acresce ainda que no meio universitário existe também um núcleo duro, quase fundamentalista, ortodoxo, daqueles a que chamo contestatários militantes que contestam pela filosofia pura do acto de contestar, de forma militante.
Mas toda esta postura é crucial porque impede, só por si, o conformismo e a inanição em que, por vezes, certos centros de ciência têm a tentação demoníaca em cair. Mas voltemos ao cerne da questão. Bento XVI foi convidado... é a acção.
Prontamente surgiu um movimento de contestação, manifestando o seu desagrado e denunciando a intenção de se manifestar, baseando o seu posicionamento, entre outras questões, no facto de ainda se manter proscrito, na Teologia da Igreja, Galileo Galilei, pela sua teoria inovadora relativamente às importâncias relativas do Sol e da Terra...é a reacção.
A este propósito, a história das civilizações conservou ao longo dos anos a célebre frase de Galileu... “E pur si muove!” Poderá ser um preciosismo, perder ainda tempo com estas questões, em 2008, a pouco tempo de estabelecer um centro de residência na Lua e quiçá visitar Marte ainda que não por teletrans-porte...Todavia, poderá ser, pelo contrário, uma questão de princípio. Pode-se acreditar no funda-mentalismo científico e achar expectável que cientistas quisessem, por fim, libertar Galileu da tortura física e psicológica que à altura a Santa Inquisição lhe infligiu e, acima de tudo, fazer-lhe justiça.
É legítimo e plausível.
Todavia, este anúncio de eventual contestação não poderá ser personalizado em Bento XVI...basta recordar que quando João Paulo II aí se deslocou, também ele foi vítima de manifestações contestatárias que o próprio, à altura, achou naturais e providas de alguma legitimidade.
Bento XVI achou por bem, contudo, declinar o convite, para evitar protestos desagradáveis...é a contra-reacção.
Mas o Papa não foi inocente quando declinou o convite pois sabia perfeitamente que o eco mundial que se geraria seria que o Papa tinha sido impedido de se deslocar à Universidade e, em consequência, infindáveis e inflamados editoriais foram produzidos por esse Mundo fora, uns mais “naif” outros, pelo contrário, bem mais doutrinários e encomendados.
A realidade, no entanto, evidencia que Bento XVI, prevendo a contestação, decidiu não se deslocar a La Sapienza e permitiu, se não activamente pelo menos de forma passiva, que se propagasse a ideia de que teria sido impedido. E sabemos perfeitamente o peso enorme de, em vez de ser feita uma afirmação, ser lançada uma insinuação... deixa a cada um enorme espaço livre para anexar, conjecturar ou inventariar os mais diversos processos de intenção.
Por outro lado a vitimização consegue, sempre, os seus frutos...
E não me digam que Bento XVI se encontra inocente e imaculado em todo este processo... recordo a rapidez com que o Vaticano se apressou a pedir, ainda que com outros termos, uma manifestação de solidariedade para com o Papa, na Praça de S.Pedro a qual conseguiu, na realidade, juntar milhares de crentes.
Mas qual a autoridade de Ratzinger para criticar o direito de opinião, ainda que por ele apodado de censório?
Ratzinger terá esquecido que, enquanto Cardeal, detinha, especificamente, o cargo de censor pontifício?
Ratzinger terá esquecido que enquanto Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (entidade que alguns apodam de moderna Inquisição) tinha precisamente a seu cargo o terrífico e medievo “Índex Librorum Prohi-bitorum”?... um Índex, como o próprio nome indica, de obras proibidas, pela Igreja Católica, aí figurando nomes como Kant ou Sartre.
Ratzinger terá esquecido que, enquanto Prefeito, sempre defendeu, junto a João Paulo II, a “obrigação moral” que teriam todos os católicos, de não ler nem sequer divulgar as obras que a famosa lista contém?
Até porque se há facto que é do conhecimento mundial é que Bento XVI não tem aspirações a ser considerado um líder ou um arauto da liberdade de expressão!
Recorde-se a título de exemplo a recente medida do Papa em permitir que as missas passem a ser celebradas em latim, na íntegra e, acima disso e ainda mais recente, a autorização para passar a ser de novo permitido que o padre celebre a eucaristia virado de costas para os fieis, como que em comunicação directa com Deus e deixando à parte, com distanciamento nítido e visível superioridade os fieis, comuns mortais. Os fieis, precisamente aqueles que, por ironia do destino, são o principal e imprescindível suporte de uma Igreja que, cada vez mais e de forma assustadora, se afasta, se enclausura, se vira para si própria, de distancia, se torna agente de exclusão em vez de agente de inclusão.
Mérito de Ratzinger?
Sem qualquer dúvida.
Manuel Damas in "O Primeiro de Janeiro" a 27/1/2008

18 comentários:

Whispers in night disse...

Ola!
passando para o ler, e lhe desejar um bom Domingo.
Mil beijos
Rachel

Blue Velvet disse...

Belíssimo artigo, Professor.
Desconhecia a verdadeira razão da não ida à Sapienza, mas sabia dos antigos cargos deste senhor Papa bem como da sua inovações na missa.
Correndo o risco de ser politicamente incorrecta, mas faço questão de o ser, e talvez um pouco racista ( eu que não sou nada racista), nunca gostei deste Papa nem um bocadinho.
Portanto, o que quer que ele faça não me espanta.
Falta-me dizer-lhe porque não gosto dele.
É simples: porque é alemão.
Um bom Domingo e parabéns.

Cristina disse...

Ora aí está aquilo a que querem chamar Sapienza!
Já esta manhã ao ler o 1º de Janeiro interroguei-me e porque não gosto de ficar com dúvidas ... professor, explique-me como se eu fosse uma miúda de 6 anos.
"teletrans-porte"?

"funda-mentalismo"?

Porque sei que me ajudará a entender, antecipadamente agradeço e desejo-lhe um óptimo domingo. Beijinhos

Statler disse...

Porra, hoje anda tudo com textos enomes.
Tou sem paxorra!!!!

Mais logo, quem sabe...

Olá!! disse...

Um artigo para ler, reler e reflectir
Beijos

Teardrops disse...

Obrigada pelo seu interesse e resposta.
Efectivamente, tenho tv por cabo, mas não da Tvcabo, mas duma concorrente lisboeta a Artelecom, que tem uma escolha mais reduzida de canais, mas simultaneamente com menos "lixo" televisivo. Não pretendo, obviamente, dizer que o Porto Canal se integre nesta última categoria, entenda-me por favor, mas efectivamente não tenho mesmo o canal - com alguma pena, pois gostaria de ver o programa.

Se gostou daquele espacito que mantenho com alguma dificuldade, poderá visitá-lo sempre que queira, mas ele é actualizado com pouca regularidade e ao sabor dos "sentires" do meu lado escuro da lua... para conhecer as outras faces da minha lua terá de espreitar aqui: http://nanny-seila.blogspot.com/

Um abraço

Manuel Damas disse...

Um bom domingo para vocês também :) Rachel e uma vez mais parabéns pelo seu espaço...muito celta!
:)))

Manuel Damas disse...

Muito obrigada, "bluezinha"...também eu partilho da sua opinião relativamente ao ratzs...
:))))))))))))))))))))))

Manuel Damas disse...

Minha querida Cristina..."teletransporte" é um conceito muito do reino da ficção cietnífica...pelo menos para já...Refere-se ao teletransporte da matéria de um local para o outro.Eu desloco-me de um lado para o outro não por um qualquer meio de transporte dito vulgar...Eu desapareço de um lado e num momento e apareço no outro lado e no momento seguinte...Qualquer coisa como eu me desfazer em milhões de particulas que depois se reagrupam num outro qualquer lugar...e assim contornavam-se as condicionantes de tempo e espaço. Teoricamente desaparecia em Portugal e aparecia na Malásia, no mesmo momento...e sem pagar bihete:))))))))))))))
Pelo fundamentalismo perco as minhas capacidades de análise, de concordância e de discordância, passando a aceitar cegamente tudo aquilo que uma qualquer corrente me diz...por fundamentalismo.
O fundamentalismo pode levar a extremismos perigosos, descontrolados, irreflectidos e demagógicos.
Um beijinho enorme.

Manuel Damas disse...

Meu caro sta...quero ficar à tua espera...

Manuel Damas disse...

Um beijito, "olázinha"...

Manuel Damas disse...

Obrigado"tears" pela sugestão que já segui.
Uma vez mais parabéns!
:)))

Cristina disse...

Obrigada, professor. A minha duvida estava na forma como as palavras apareceram escritas, quer no jornal quer aqui. Achei que poderia dar-lhes significados que não os que conheço. Foi só isso! beijinhos

Manuel Damas disse...

Pois...as palavras apareceram erradamente escritas.
Um beijinho grande!

Pinto disse...

Se Deus é Liberdade, então o Homem, fazendo Deus "à sua imagem e semelhança", trata de se "auto-mutilar" tirando de si, querendo afundar os outros consigo, o que é a mais valiosa característica do ser humano: o poder de pensar e seguir escolhas por si...
Como tal, essa do “Índex Librorum Prohi-bitorum” é um atentado ainda mais mórbido e castrador que os que matam centenas e centenas de seres humano por ano. E isso vem de um Pápa!...Ah!, esqueci-me que tbm é um indivíduo como eu e como tu. Sim, porque por serem pessoas ligadas ao mundo religioso não significa que tenham alguma célula da Perfeição!

O pseudónimo até estava a ser engraçado e tinha o seu significado, como é óbvio. Mas as palavras eram igualmente minhas e o pensamento meu também. Como tal, aqui estou.

Um grande abraço!

Mize disse...

Pois que játinha lido, e dito que SIM, tem razão nisto que aqui diz.
Gostei imenso.

Beijinhos.

Manuel Damas disse...

Pois meu caro pinto, estás cá e estás bem...ainda que muito raramente, para infelicidade de quem te lê.
Espero que continues a reconstruir-te, em todas as tonalidades.
O pseudónimo foi uma fase que, pelos vistos, decidiste amordaçar. É uma opção.
Vai voltando.
É sempre um prazer ler-te.
Um abraço

Manuel Damas disse...

Bijufas, zeuzinha...